18 de dezembro de 2007

A rosa de número 6.001

No plantão do último fim-de-semana acabei indo cobrir o tiroteio entre policiais e bandidos na Mangueira. Estive no local e, depois, já no fim da noite de sábado, fui para o Souza Aguiar, para onde tinham sido levados dois feridos, duas vítimas de balas classificadas como perdidas: a menina Fabiana, de 11 anos, e seu avô Fernando, de 60.
No início da madrugada de domingo, minha conversa com um tio da estudante, no pátio do hospital, foi interrompida por gritos: o pai, um outro tio e um ou dois vizinhos saíam desesperados do interior do Souza Aguiar. Tinham acabado de saber que Fabiana morrera. O homem com quem eu conversava correu na direção do grupo, eu me juntei aos outros jornalistas. O pai de Fabiana chorava sentado num banco, cercado pelos parentes e vizinhos. O cinegrafista e os fotógrafos registravam a cena da forma mais diiscreta e respeitosa possível: ninguém usou flash, nenhuma luz foi acesa.
Um dos tios de Fabiana - irmão da mãe dela, parece - atravessou o pátio do hospital gritando, batendo em portões. Logo em seguida chegou a mãe da menina, acompanhada por duas outras mulheres. Ela já sabia da notícia. Chorando muito, andou a esmo pelo pátio. Depois, ela se sentou numa calçada que fica na área externa do hospital - a primeira página do "Globo" de ontem publicou esta imagem.
Alguns minutos depois, aos soluços, uma das parentes da menina, conversou com os repórteres: não era entrevista, era mais um despejar de frases meio desconexas, que alternavam críticas à atuação da polícia com um lamento que, naquela madrugada, seria repetido como um mantra por outros que ali estavam compartilhando do mesmo drama: "Não moramos em favela porque gostamos, moramos porque não temos dinheiro para morar em outro lugar."
No dia seguinte, pelo Google Maps, vi que a menina morava com os avós paternos numa rua asfaltada, urbanizada, um acesso ao morro do Telégrafo, ali na Mangueira. Muitas favelas não têm mais como crescer para cima dos morros, espalham-se então para baixo, para a parte urbanizada da cidade. Seguem uma logica razoável: se o poder público não conseguiu levar o Estado para o morro, o morro leva a favela para o asfalto. O entorno das favelas acaba favelizado, é só ver o que aconteceu em volta do Alemão e com os prédios que ficam na subida do Dona Marta, em Botafogo.
No domingo, tive que passar pelo velório da menina. Pedimos permissão para gravar algumas imagens do lado de fora da capela, perguntei se os parentes poderiam nos ceder uma foto da menina. O tio com que conversara na véspera foi até ao lado do caixão e retirou de um arranjo de flores uma foto de Fabiana, vestida com uma roupa de Papai Noel. Ao ver que a foto estava sendo entregue a um jornalista, a avó paterna da menina gritou e saltou na minha frente. Disse que não, que não. Que não queria a foto da neta nos jornais, na TV. Pedia desculpas, e dizia que não, que não. Procurei acalmá-la, afirmei que, claro, ela tinha todo o direito de não ceder a imagem, não, não ficava chateado - e, por favor, a senhora não precisa pedir desculpas. A avó então começou a falar da neta, a contar que ela era ótima aluna, que só tirava boas notas. Interrompia a narrativa para perguntar-se - "Como vou viver sem minha pretinha?" -, e continuava a lembrar da menina. A Fabiana, dizia, tinha muito medo de ser atingida por uma bala. Disse que ela tinha visto na TV aquelas seis mil rosas colocadas em Copacabana, uma manifestação que chamava a atenção para seis mil pessoas mortas em situações violentas:
"Aí ela me disse: `Vó, eu não quero ser uma rosa daquelas.´ E hoje, moço, ela é a rosa seis mil e um."
Depois disso, só me restava fazer um último carinho na avó e sair logo da capela, não havia como gravar nada ali.

A bolsa da Funarte

O colega em dobro Marcelo Moutinho - é escritor e jornalista - levanta em sua página um tema importante e delicado, sobre questões que envolvem o resultado da Bolsa Funarte de Incentivo à Criação Literária. Eu não apresentei nenhum projeto, ele também não. Portanto, não estamos trabalhando em causa própria. Mas é legal discutir o assunto. Vale dar uma conferida em www.marcelomoutinho.com.br . Anotem o endereço, sempre é bom passar por lá.

17 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (1)

Publicado na "Folha de S.Paulo" em 15/01/96.

Túlio & Télvio

Fernando Molica

RIO DE JANEIRO - A contratação do atacante Télvio pelo Botafogo tem a cara do Brasil. Ah, que Télvio é esse? É o irmão gêmeo de Túlio.
Ao contrário do irmão, artilheiro do campeão brasileiro, Télvio é dono de um currículo limitado. Foi parar no Botafogo graças a Túlio, que incluiu a contratação do irmão no pacote que impediu sua suposta venda para o Japão.
Túlio agiu de acordo com uma das mais fortes tradições brasileiras: a de arrumar um emprego público para um parente. Os clubes não são repartições públicas ou empresas estatais, mas têm lá suas semelhanças. Assim como acontece com as instituições públicas, a propriedade de um clube é meio difusa.
Esses clubes são geralmente administrados de forma amadora: ao contrário do que ocorre em empresas privadas, seus dirigentes não são punidos pelos eventuais prejuízos por eles gerados.
Assim, os clubes acabam vítimas de um fenômeno semelhante ao que atinge repartições públicas ou estatais: o que deveria pertencer a todos acaba sendo considerando como não sendo de ninguém. Logo, não há nada de errado em patrocinar uma sangriazinha aqui ou ali.
Ao longo dos séculos, o Estado brasileiro foi transformado em um empregador irresponsável. Isso com o incentivo da maioria da população, ávida por um emprego público, uma colocação.
A conta do empreguismo, que era paga pela sociedade, hoje desaba também sobre os outrora beneficiados, punidos com a retração de salários e com a falta de perspectivas profissionais.
Apesar de todas as discussões sobre nepotismo e empreguismo, para muita gente político bom continua a ser aquele que garante o futuro de seus eleitores na forma de um emprego público.
Túlio brilhou no campeonato do Botafogo, agora ajuda a transformar o clube em uma Botafogobras ou, como diria o deputado Roberto Campos, uma Botafogossauro. Nenhuma novidade: na lógica nacional, empreguismo ruim é aquele que beneficia apenas aos outros.
*
Por último: deu na Folha que 67% dos cariocas têm mais medo do que confiança na Polícia Militar. É impossível não recorrer ao apelo de Chico Buarque: ''Chame o ladrão''!

15 de dezembro de 2007

Niemeyer - beleza e/ou utilidade

Em primeiro lugar, parabéns a Niemeyer, incansável produtor de beleza. É admirável vê-lo chegar aos cem anos lúcido e produtivo. Seu interesse em participar de grupos de estudos, em continuar aprendendo, chega a ser emocionante. Mas, enfim, não consigo deixar de achar - com todo o respeito - que ele é mais escultor do que arquiteto. Arquitetura é uma forma de arte, sem dúvida. Mas, diferentemente da música e da pintura e mesmo da literatura, a arquitetura não pode ser dissociada de um objetivo prático – ainda que a produção do belo não deixe de ser também algo útil e necessário. Talvez o maior desafio da arquitetura seja esse: produzir uma beleza que não entre em choque com a função de um determinado prédio, com o conforto de quem vai usá-lo ou habitá-lo. E é aí que implico com Niemeyer e com seu endeusamento (logo ele, ateu de carteirinha). É como a velha piada: o bom é morar de frente para uma casa projetada por Niemeyer, não morar nela.

Implicância minha? Talvez. Mas quem gosta de samba e freqüenta o sambódromo sabe como a obra é ruim. Linda, mas ruim. Tanto que sofre sucessivas adaptações. As arquibancadas são pequenas e distanciam o público do desfile. Os intervalos entre cada um dos blocos de concreto é assustador, contribui para esfriar a apresentação das escolas. Tanto que os espaços acabaram sendo preenchidos por novas construções, que abrigam camarotes e cabines de jurados.

Para os mais novos: sabe aquele lugar das cadeiras de pista e frisas? Originalmente seria uma geral - é, Niemeyer e o saudoso Darcy Ribeiro (sujeito brilhante, mas que não entendia nada de carnaval) bolaram um lugar para as pessoas assistirem o desfile em pé! Programão, varar a madrugada de pé. Se não me engano, isso só ocorreu no primeiro ano do sambódromo; depois, os espaços foram ocupados por cadeiras.

Alguém aí já assistiu os desfiles do setor 4 das arquibancadas? È um dos piores locais do sambódromo, fica recuado em relação ao setor 2, aquele comprido, que abriga camarotes. Com o recuo, quem está ali, naquela arquibancada, fica ainda mais longe da pista. E, pior, demora mais a ver a escola chegar, seu campo de visão é menor, tem como obstáculo o minhocão de camarotes. Mas por que então foi projetado assim? Andei muito pelo sambódromo para tentar entender isso. E acho que descobri: o setor 4 foi recuado para permitir, já a partir dali, uma centralização do arco monumental que marca o fim da pista. Basta olhar da Presidente Vargas: lá de longe, o arco não fica no centro da pista. Esta centralização só ocorre nos dois últimos setores: os formados pelos blocos 4 e 11 (um em cada lado da pista) e 6 e 13 (os da Apoteose). Ou seja, em nome da beleza – a centralização do tal arco –, a visão do público foi prejudicada. Não consigo ver nisso um exemplo de boa arquitetura.

E por falar no arco: ele é muito bonito, mas atrapalha a dispersão das escolas, trata-se de um obstáculo no fim da pista. Isso, claro, sem falar na Apoteose em si, uma intervenção autoritária na lógica linear dos desfiles bolada pelo Darcy Ribeiro: ele queria que, no fim dos desfiles, cada escola evoluísse como num baile de carnaval, “uma cobra procurando o próprio rabo” – costumava dizer. Foi outra novidade que acabou abandonada pelas escolas por ser incompatível com o espetáculo. Resultado: mais cadeiras para tapar aquele latifúndio até as arquibancas. Na Apoteose, as arquibancadas ficam ainda mais longe da pista.

Resultado: o sambódromo ficou pequeno (as maiores arquibancadas são as piores – setores 1, 6 e 13) e não acabou completamente com o monta-desmonta. Todo ano a Passarela do Samba tem que que ser adaptada para o desfile, com a colocação de estruturas metálicas que suportam cadeiras de pistas e frisas. Faltou ali algo fundamental, a humildade do arquiteto diante da função de sua obra. O resultado é muito bonito, mas pouco prático. É só perguntar pra qualquer sambista.

14 de dezembro de 2007

Dialética dos "inhos"

Ao dar uma olhada no arquivo do antigo quase-blog vi um post sobre "inhos". Um post, acreditem, favorável aos "inhos" - aos "inhos" da seleção brasileira que então disputava a Copa da Alemanha: Juninho, Cicinho, Robinho. Hoje, falar em "inho" é falar naqueles policiais presos por supostas ligações com bicheiros. Bem, no post eu dizia: "Que venham os inhos." Que fique claro, eu tratava dos jogadores da seleção.

No canto da cabina

Tem alguém aí? Bem, eu estou aqui. De volta após quase um ano de ausência. Volto de cara nova - até com uma cara, aí à direita, ó. É uma foto da última Bienal do Livro, aqui no Rio. Bem, já que citei a Bienal, recomeço com o trecho de um livro. Uma frase tirada do belíssimo "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", do Mia Couto (ele esteve aqui na última Flip, participou de um debate com o Antônio Torres). A frase é tão bonita que deixei marcada a página onde ela está publicada, logo no início do livro: é a 18. Esse trecho do livro, editado pela Companhia das Letras, relata a volta do personagem principal para a ilha em que nascera, em Moçambique. O sujeito estava triste, angustiado, sem saber o que encontraria por lá - fora chamado para o enterro do avô. E o Mia Couto traduz esse sentimento com uma frase espetacular: "Entro na cabina do barco e sozinho-me num canto." Bonito pacas, né?

Enfim, ao som da prosa do Mia Couto tento recomeçar este blog, que volta de nome e cara novos. O nome é uma referência ao título do romance que lançarei em abril pela Record: "O ponto da partida". Que eu não fique sozinho, no blog e no livro.

8 de dezembro de 2006

Parabéns pra você, Fogão, pelos seus aniversários!

Hoje, 8 de dezembro, é dia do aniversário do Botafogo. Melhor, dia de um dos aniversários do Botafogo. No caso, do Botafogo de Futebol e Regatas, fundado em 1942, resultado da fusão do Botafogo, um clube de regatas, com o Botafogo, um clube de futebol. Parece engraçado, mas temos três aniversários, três datas para comemorarmos, três dias para envelhecermos. Em 2004 comemoramos nosso primeiro centenário, certo? Errado. Há dois anos comemoramos nosso segundo centenário. Nosso primeiro centenário foi comemorado em 1994 - tenho um selo dos Correios que prova a efeméride.
Explico: em 1894 foi criado o Club de Regatas Botafogo; em 1904, o Botafogo Football Club e, em 1942, em 8 de dezembro, o Botafogo de Futebol e Regatas, resultado da fusão dos outros dois. Uma fusão apressada por uma tragédia: a morte de um jogador num jogo de basquete entre as duas equipes. Um clube era de regatas; o outro, de futebol, mas se fundiram em conseqüência de um jogo de basquete: nada é simples, eu disse! O nome do jogador era Armando Albano, atleta do Football. Ele morreu na quadra, e desta morte nasceu o Botafogo de Futebol e Regatas. Nascemos, portanto, de uma tragédia, como se nossa mãe tivesse morrido no parto. Podem chorar, a história é triste e bonita pacas.
Enfim: daqui a 36 anos estaremos comemorando nosso terceiro centenário, isto, com 148 anos de história. Envelhecer 300 anos em 148 não é para qualquer um, chega a ser assustador. Parece história do Malba Tahan, aquele homem que calculava. Pra quem acredita: somos regidos por três signos: Câncer (1o. de julho, Regatas); Leão (12 de agosto, Football) e Sagitário (8 de dezembro, BFR). Três signos, repito. Fora os ascendentes e fora a Estrela, a solitária. Depois disso tudo, vocês acham que é simples torcer pelo Botafogo?

12 de setembro de 2006

Nós, os alemão

Preocupados que estamos com a violência que se expressa nas armas de fogo empunhadas pelos nossos, digamos, inimigos de classe - os bandidos que nos assaltam e ameaçam nossas vidas -, nos esquecemos de outro adversário, aquele que cultivamos em nossas casas, em nossas famílias, em nós mesmos. Somos, de um modo geral, na prática, defensores de uma cultura da morte, do desrespeito. Vivemos em uma sociedade que volta e meia protesta contra radares de controle de velocidade, que elege irresponsáveis que se candidatam vociferando contra uma suposta indústria das multas. Chegamos ao cúmulo de instituir nos túneis e auto-estradas, avisos que alertam que é hora de diminuir a velocidade porque estamos a nos aproximar do radar. Pois, como diriam aqueles nossos antepassados europeus (que devem rir muito dessa nossa prática).
Temos uma legislação que nos desobriga da submissão ao bafômetro; nos orgulhamos de poder dar aos nossos filhos carros cada vez mais potentes e, se possível, blindados – assim escaparão dos bandidos. Fingimos não ver que esses filhos, aos 15/16 anos, freqüentam lugares proibidos para menores de idade, locais onde quase todos consumirão bebidas alcóolicas - o dono da boate é um dos nossos, um cara legal. Mais ainda: nas festas de adolescentes é comum que seus pais patrocinem a distribuição das tais bebidas. Alguém aí já viu um garçom recusar bebida a um adolescente em uma dessas festas de debutantes?
Depois de uma tragédia como a da Lagoa, que machuca a todos, é fundamental respeitar a dor de quem perdeu seus filhos assim como é necessário tentar evitar outros acidentes como aquele. Falamos todos na importância de dar limites aos jovens, esses adoráveis rebeldes. Mas quem é que vai dar limites aos pais, a cada um de nós? Quem vai limitar o sujeito que pára o carro na calçada, que, no Rebouças, pisa no freio metros antes do radar, que sabe de cor todos os pontos em que há pardais na Linha Vermelha? Quem vai dizer para um pai de família que ele não deve ir de carro para o bar ou para o restaurante locais onde possivelmente irá encher a cara? Quem é que vai dar voz de prisão para o dono da boate que permite a entrada de menores e que a eles vende bebida alcóolica?
Alguns outros países já responderam a essas perguntas. O Estado cumpre as desagradáveis tarefas listadas aí em cima. É ele que adverte, multa, pune e prende. E não faz isso porque é chato, mau, desagradável, estraga-prazeres. Faz isso em nome da sociedade que o criou e o sustenta. Uma sociedade consciente da necessidade de um ente que, que forma impessoal, a preserve e a proteja. Proteja-a, às vezes, de si própria. Muitas vezes precisamos de quem nos proteja de nossos excessos e evite que prejudiquemos outras pessoas. Nem sempre somos tão corretos, tão racionais. Nem sempre fazemos o que escrevemos.
Por alguma razão que o Roberto Da Matta poderá tentar explicar, desenvolvemos uma relação curiosa com o Estado que, a todo dia, sustentamos com nossos impostos. Algo como: adverta, puna e prenda – os outros. Não admitimos ser fiscalizados, alertados, multados. “Vá prender bandidos!”- que guarda de trânsito já não ouviu esta frase? Aquele que não a ouviu deve ter recebido uma pergunta. Algo como: “Não dá pra resolvermos isso de outra forma?” O engraçado é que tendemos a classificar de corrupto apenas o policial que se vende, não o motorista que o compra. Como em outras relações, há aqui a figura do ativo e do passivo, ambos cúmplices, elementos essenciais para a realização de um determinado ato. Um depende do outro.
Angustiados com o inimigo externo, nos esquecemos do quanto somos cúmplices e promotores de um outro tipo de violência. Uma violência que, em determinados universos, deve matar e ferir muito mais do que aquela outra, banalizada pelos tiros de armas alheias. Ao longo de alguns séculos construímos uma sociedade violenta, excludente, e só sabemos culpar os feios, sujos e malvados, como no filme de Ettore Scola. Nos acostumamos tanto a desrespeitar o outro que acabamos criando condições ideais para o auto-extermínio. Ninguém - nem o Estado, nem a família - pode nos limitar, nos multar, nos punir. Fomos tão radicais na busca dessa impunidade que hoje não sabemos mais sequer proteger nossos filhos. Conquistamos o direito de nos matarmos e de dormirmos assustados com o ruído de cada freada que invade nossas noites.

3 de setembro de 2006

A grande cena

É uma daquelas cenas que valem o ingresso. Aquele raro momento em que o implícito vale mais que o explícito, que o escancarado. Lembra uma outra, igualmente delicada, de "Eles não usam black-tie" - em um determinado momento da crise gerada pelo movimento grevista, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam feijões na cozinha. Não há discurso, não há - ou quase não há - diálogos. Há apenas perplexidade, dúvida, angústia. Há, enfim, cinema, muito cinema. O melhor cinema daquele filme de Leon Hirzman. A cena de agora é de "Zuzu Angel", de Sérgio Rezende. Um bom e mesmo emocionante thriller, prejudicado, aqui e ali, por cenas em que há pouco cinema e um excesso de verborragia. Mas, enfim, a cena: logo depois do assassinato de seu filho, Zuzu Angel, incorporada por Patrícia Pillar, sobe uma ladeira em busca do pai de Carlos Lamarca, o líder guerrilheiro cujo endereço Stuart Angel se negara a revelar sob tortura. Recusa que lhe valera uma dose-extra de torturas e que lhe causaria a morte. Zuzu entra numa sapataria e encontra um velho - Nélson Dantas, brilhante - a trabalhar. Zuzu fala e fala: fala que seu filho morrera para proteger o filho daquele homem ali. Em nenhum momento cita o nome de Lamarca, o oficial do Exército que desertara para aderir à luta armada. O velho parece impassível, ouve o discurso daquela mulher enquanto continua a trabalhar. Trabalho que envolve alojar alguns pregos entre os lábios - uma técnica dos sapateiros para facilitar o seu ofício. Mãos e boca ocupadas, o velho ouve a cantilena daquela mulher. Parece não ouvir o que ela diz; melhor, parece ouvir mas não entender bem o que ela fala, parece ter uma certa postura olímpica, distante. Algo como quem é essa louca que vem me falar em filho quando eu também, de certa forma, perdi o meu, eu que nem sei onde ele está, ele que é um dos homens mais caçados do país? Dantas olha para a mulher, para o pé de sapato que conserta; martela o sapato, coloca e tira pregos nos lábios. Até que algo rouba a atenção daquela mulher. Ela que, até então, limitava-se a despejar seu rancor sobre o velho, percebe enfim o quanto de dor - calada, sufocada - havia naquele homem mudo. De seus lábios saía um filete de sangue, sangue que brotava de uma ferida causada pela pressão exercida pelos lábios sobre aqueles pregos. Cada palavra de Zuzu fora como uma martelada na alma, na boca do pai de Lamarca; pancadas cuja força enfim se revelava naquele filete de sangue. Uma dor que revela uma outra forma de tortura, uma dor cruel, sem sentido, que desnuda a impotência de quem a causa e de quem a sente. Uma dor bumerangue, pregos que agora atingem quem, até há pouco, despejava tantas e tantas dores. Uma dor não-óbvia, difícil de detectar e, principalmente, mostrar. Uma dor que só um grande filme - ou um grande livro, ou um grande quadro - pode revelar. "Zuzu Angel" não chega a ser um grande filme, mas abriga uma grande cena, digna do melhor cinema, de dois grandes atores, de sensíveis roteiristas e diretor. A cena que nos faz cúmplices daquelas tantas dores, dores que passam a doer também em todos nós.

21 de agosto de 2006

Heil Riverside!

"Lugar de brasileiro é na favela", "Escória", "Fora latinos". As frases foram exibidas ontem por cidadãos norte-americanos durante um protesto em Riverside, uma cidadezinha de 8.500 habitantes que fica a 170 km de Nova York. Lá, informa a "Folha" de hoje, desde 26 de julho é crime dar emprego a imigrantes ilegais - só de brasileiros, havia uns 2 mil por lá. As ofensas doem, nos machucam. Não estávamos acostumados a esse tipo de tratamento - também não estávamos acostumados a exportar gente, antigamente éramos importadores de mão-de-obra, destino de muitos sonhos. Hoje exportamos jogadores de futebol, putas, travestis, doutores e trabalhadores braçais - o paraíso fica longe daqui.
Deixando um pouco de lado nossas mazelas, não deixa de ser chocante como a humanidade não aprende, como a idiotice nos fascina. Milicianos de Riverside - a boa e pacata gente de Riverside, alguma rádio local deve falar isso -, catam brazucas nas ruas, armados de espingardas e bastões de beisebol. Lembra um pouco a porradaria contra os negros, há alguns anos, lá mesmo nos EUA, não? Lembra também - por que não? - a perseguição a judeus, homossexuais, ciganos durante o nazismo. Talvez no lugar da estrela amarela e do triângulo rosa nossos patrícios tenham que andar com um distintivo em forma de tamborim nas ruas destas cidadezinhas dos Estados Unidos.

15 de agosto de 2006

Criminalidade

O presidente Lula daria uma boa demonstração de combate ao crime se escolhesse melhor com quem sai nas fotos. Essa que saiu na capa do Globo de hoje, meu Deus. O Márcio Thomaz Bastos tá com cara de quem quer gritar "Teje preso" para um de seus companheiros de mesa. Grita, ministro, grita.

11 de agosto de 2006

Ato falho

Gol anulado

João Bosco/Aldir Blanc


Quando você gritou mengo
no segundo gol do Zico
tirei sem pensar o cinto
e bati até cansar.
Três anos vivendo juntos
e eu sempre disse contente:
minha preta é uma rainha
porque não teme o batente,
se garante na cozinha
e ainda é Vasco doente.
Daquele gol até hoje
o meu rádio está desligado
como se irradiasse
o silêncio do amor terminado.
Eu aprendi que a alegria
de quem está apaixonado
é como a falsa euforia
de um gol anulado.

Resumo

Luiz Inácio admitiu:

1. seu governo combateu a ética;

2. os salários caíram;

3. o, como diria o Ivan Lessa, Bananão é grande pacas.

(Contava-se, antigamente, uma piada sobre o Costa e Silva, aquele do AI-5 e que tinha fama de ser pouco astuto. Certa vez ele estava num avião, sobrevoando o território nacional. Alguém então disse: "Presidente, estamos a nove mil metros de altura". Impressionado, o general comentou: "Sabia que o Brasil era grande, mas não sabia que era tão alto".)

7 de agosto de 2006

Sempre free

Free shop na entrada é coisa nossa. Quase exclusivamente nossa. De um modo geral, as lojas duty free ficam na saída de um país, na hora em que o sujeito vai embora. Mas, enfim, somos originais e benevolentes na hora de dar vantagens a quem já tem vantagens. Quem, por alguma razão, consegue viajar para o exterior, merece um carinho extra, o direito de comprar produtos essenciais como bebidas e comésticos sem pagar impostos. Além dos 500 dólares em compras que pode trazer do exterior, o viajante pode gastar outros 500 ao chegar. O privilégio justificado: dizia-se que era uma maneira de segurar por aqui os dólares que iriam para o exterior. Depois, os caras passaram a aceitar cartões de crédito, dólares apenas virtuais. Agora o real passará a ser aceito e ninguém deu desculpa nenhuma. No fundo, a desculpa é a de sempre: manter o privilégio de quem sempre foi privilegiado. Free, sempre free.

25 de julho de 2006

Dunga

Ainda a seleção. Todos os comentários a respeito da convocação de Dunga para o comando da seleção falam em cobrança de raça, de espírito de luta, de garra. Ninguém fala muito em futebol, em estilo de jogo, em esquema tático. Fica a pergunta: se é pra isso, por que não chamar para técnico o, digamos, comandante do Bope?

1 de julho de 2006

Zidane

Os deuses são justos. Zinedine Zidane, que não posa de foca amestrada em comercial de banco, que não faz malabarismo pra cinegrafista, que joga o bom jogo, fez barba, cabelo, bigode; Zidane nos depilou, nos aplicou uma brazilian wax. Parabéns, Zidane.

Antiguidade é posto

Posto que nos ferramos. Né, Cafu? Né, Roberto Carlos?

30 de junho de 2006

Los Hermanos

Até que tentei torcer contra a Alemanha - o que implicava em torcer pela Argentina. Achava, e acho, que seria mais fácil derrotar os vizinhos numa eventual final. Até que, no segundo tempo, o ótimo Maxi Rodríguez resolveu mostrar a força da vocação argentina: simulou uma falta, se jogou no gramado, tudo para ganhar tempo e tentar impedir uma reação alemã. A velha e irritante catimba argentina. Os caras não se convencem que têm futebol suficiente para ganhar sem apelar para esse recurso. Bem-feito, tomaram um gol, perderam nos pênaltis. Comemorei cada gol alemão.

29 de junho de 2006

A perfeição é amarela

Caros jogadores da seleção brasileira. Acho que a essa hora vocês devem estar se perguntando algo como “caramba, quatro jogos, quatro vitórias, recordes coletivos e pessoais batidos, e os caras ainda reclamam?” Pois é, nós ainda reclamamos – eu mesmo tenho xingado alguns de vocês. Creio não ser o caso de pedir desculpas pelo destempero, pelo excesso de exigência: jogar bem, dar espetáculo, não falhar, e, claro, ganhar sempre e conquistar o hexa. Talvez seja melhor tentar entender o que nos faz assim.
Com nossos clubes de coração não somos tão exigentes. De alguma forma aprendemos a absorver algumas das características de nossos times, a considerar como nossas qualidades e, vá lá, alguns defeitos dessa nossa paixão primordial, a única que não pode ser trocada, que admite todo o tipo de desfeita e traição – o amor por um clube é eterno e sempre dura. Como escreveu Paulo Mendes Campos: “Nos meus torneios, quando mais preciso manter os números do placar, bobeio num lance, faço gol contra, comprometo, tal qual o Botafogo, uma difícil campanha”. É ele também que diz: “O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu;(...) o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu (...)”.
Há quase dez anos a jornalista Cláudia Mattos lançou “Cem anos de paixão”, livro em que tenta rastrear o que há por trás das relações entre os quatro principais times cariocas e suas torcidas. Acabou fazendo um livro sobre o Rio, tamanha a identificação entre a cidade, seus clubes e seus apaixonados torcedores. De alguma forma, todos somos ou achamos que somos parecidos com nossos clubes, para o bem e para o mal.
Mas com a seleção é diferente. Com a seleção, nossa relação é outra. Com os clubes, somos o que somos, com a seleção, somos aquilo que desejamos ser: bonitos, elegantes, eficentes, eternamente vencedores. O time é como um amor cotidiano, apaixonado, mas com cara de dia-a-dia. Daqueles que admitem uma ausência, uma falha, uma camisa meio desbotada, uma barriguinha, uma celulite, uma noite de amor assim-assim. De vez quando, um dia dos namorados, um aniversário, rola um jogo especial, um jantar com vinho, uma viagem, uma decisão de campeonato (gloriosa, mesmo que contra o Madureira). Seleção é diferente. Seleção, ainda mais em Copa do Mundo, é sempre dia de festa, de roupas novas, Copacabana Palace, corpo malhado, performances impecáveis em noites cheias de gols de placa.
No clube, erguemos as mãos aos céus para agradecer o amor que sabemos merecer – ainda que o goleiro seja meio frangueiro; a zaga, inconfiável; o meio-campo, pouco criativo; o ataque, sonolento. No Maracanã de cada dia, admitimos o gol de canela, o chutão, não nos envergonhamos do erro do juiz que nos ajuda. Sabemos que seria impossível cobrar perfeição de nossos times, de nós mesmos. Perfeição não é para todo dia, só acontece de vez em quando; para ser exato, de quatro em quatro anos. É quando temos chance de reafirmar que somos os melhores. Na seleção não cabe todo mundo, não é para qualquer um: nenhum jogador do Rio foi convocado mas torcida alguma reclamou, sabemos das nossas limitações. Nesse nosso olimpo canarinho, os deuses têm que ser perfeitos. Na seleção, fazemos restrição a gol de bico – mesmo que ele seja salvador, como o do Ronaldo, na Copa passada, contra a Turquia. Na seleção não se pode dar cotovelada, Leonardo; não se perde pênalti, Zico. A condenação à falha pode ser perpétua, como a que experimentou Barbosa.
Então, meus caros, entendam que não é bem de vocês que estamos cobrando tanto. Estamos cobrando de nós mesmos, uma cobrança cruel, absurda, irracional, que nos levaria ao suicídio coletivo caso exigida no cotidiano. Por favor, compreendam: vocês, queiram ou não queiram, são o que temos e somos de melhor. E não fica bem, Ronaldo, aparecer em público com aquela barriga; não dá, Roberto Carlos, para mandar a bola para a arquibanca; é ridículo errar o drible e simular pênalti, Adriano; Ronaldinho, você tem que ser genial sempre; Cafu, não é admissível envelhecer. É desumano pedir tanto? É claro que é. Por isso que a gente só pede de quatro em quatro anos, quando todos ficamos infalíveis, bonitos, imbatíveis; é por isso nunca ficamos satisfeitos. Nosso desejo de perfeição veste amarelo.

22 de junho de 2006

Coisas da vida, Zico

Leio no blog do Tiago Petrik - www.nominimo.com.br - que o Zico, em uma conversa com ele, reclamou de tudo ao justificar a até aqui lamentável campanha do seu time: falou dos juízes, da falta de 'camisa' do Japão, do horário do jogos, da Fifa (não se referiu ao excesso de pólen no ar alemão, deve ter guardado isso para a próxima entrevista). Com todo o respeito pelo ex-jogador: a vida é assim, meio injusta. Por isso que gostamos tanto de futebol, um esporte em que nem sempre o melhor vence. As zebras ocorrem muito mais no futebol do que em outros esportes; na vida também é assim. Chororô pega mal, principalmente para um cara que teve uma carreira vitoriosa, pelo menos naquele time da Gávea. Nem sempre juízes erram de forma consciente, proposital. Eles também erram por errar, como jogadores de futebol, como médicos, como jornalistas. Insinuar que a Fifa não tem interesse no mercado japonês é risível. Em 78, 82 e 86 todos torcemos para o Zico repetir na seleção o futebol que jogava com a camisa rubro-negra. Ele teve alguns bons momentos em 82 e, mesmo, em 86 (aquele belíssimo passe para o Branco, no jogo contra a França). Mas não foi o Zico que esperávamos ver. É da vida: Fontana, Dario e Gilmar (terceiro goleiro em 94) foram campeões do mundo; Zizinho, Zico e Falcão, não. E vida que segue, como diria o botafoguense João Saldanha - o mesmo que afirmava: quem reclama, já perdeu.