2 de janeiro de 2008

Dicró


Trabalhar no dia 31 de dezembro não é exatamente um prazer. Fazer matéria, debaixo de sol - e que sol! - no Piscinão de Ramos, não chega a ser algo que peçamos a Papai Noel. Mas é do jogo. E acredite: pode ser divertido. Isso quando se tem o prazer de entrevistar o Dicró, grande sambista, expoente do que há alguns anos se chamava de sambandido. O cara é muito engraçado. Capaz de, em menos de cinco minutos, despejar algumas pérolas para o repórter encharcado de suor. Ele discorria sobre as maravilhas do réveillon à beira-piscinão - e elencou as vantagens da festa em relação àquelas que ocorreriam do lado de lá do túnel:


1. "No piscinão não entra mulher com celulite."

2. "O melhor da festa vai ser a minha sogra fazendo striptease."

3. "Vou cantar até de manhã... se a polícia não chegar. Mas, tá tudo certo, tá tudo no arreglo, não vai ter problema não."

4. "Vou cantar em vários idiomas, em inglês, francês, alemão. Aqui vem muito turista, até porque é mais perto do aeroporto internacional."


Depois de soltar as frases, ele cantou um trecho de um de seus sucessos, a "Melô da galinha", de Pedrinho da Flor.

Você sai de casa igual a uma bonequinha
Toda alinhada, maquiada, cheirosinha...
Mas lá na esquina o povo sempre diz que você é galinha
Você não tem bico, não tem pena, não tem asa
Não entendo nada por isso fico na minha
Só sei que na esquina o povo diz que você é galinha


Não é lá muito politicamente correto. Mas é engraçado pacas. O clipe da música está em http://www.youtube.com/watch?v=r06WDju36hU .

Liberdade para a menina C.!


Para não cometer nenhuma infração ao Estatuto da Criança e do Adolescente, vou omitir o nome da menina que inspira esta crônica. Menina que se impõe - aos berros - ao texto. Explico: a C. é minha vizinha, mora num prédio ao lado do meu, deve ter uns 5/6 anos de idade. E, desde que era um bebê, chora e grita muito. Por problemas acústicos, tudo o que é sussurrado em seu apartamento é ouvido aqui em casa. Imagine o que acontece quando se grita por lá. E olha que se grita muito. Tanto que me vi obrigado a comprar um aparelho de ar-condicionado para o meu escritório. Sem ele, sem fechar as janelas, jamais conseguiria ter escrito o "O homem que morreu três vezes" - o relato das aventuras do meu curioso personagem naufragaria diante dos gritos da C. e, principalmente, dos berros de sua mãe.
A mãe, o X da questão. A mãe da menina grita o tempo todo com ela - desde que a C. era bebê. E tome de "C. não faz isso!", "C. sai daí!", "Pára com isso C.!", "C. você me enlouquece!", "Já pro castigo, C.!". Já pensei em sair grudando nos postes e nos muros da rua cartazes pedindo liberdade para C. A mãe dela deve ser veterana do Desipe, ex-carcereira, sei lá. A mulher enche o saco da filha, o tempo todo. Nunca a ouvi propor algo como uma ida ao parquinho, à praia, ao cinema. Nada de chamá-la para tomar um sorvete, um suco ali na esquina. A mulher só reclama. E a filha, claro, aprendeu a conviver com os gritos e - céus! - a reproduzi-los. A C. também só fala aos berros, e que voz potente tem a menina! Uma berra daqui, a outra responde dali. E tome birra, choros, esganiços. A compra, no Natal, de uma piscininha de plástico, acabou com o que restava de calma por aqui. Dava pra acompanhar, pelos diálogos, toda a movimentação na casa, as evoluções aquáticas da criança: o apartamento delas tem uma área externa, local de confraternização familiar e de sonoros e eventuais churrascos.
Bem, espero que em 2008 a mãe de C. encontre aquela paz tão citada nos votos de felicidades para os anos vindouros, que tenha um pouco mais de tranqüilidade nas suas relações com o mundo e, principalmente, com a filha. Que aprenda que não é necessário berrar o tempo inteiro. Talvez, neste silêncio, consiga descobrir virtudes na filha, tenha mais prazer na convivência com ela. E, quem sabe?, possa sacar como é bom poder desfrutar da companhia de um filho. Torço para ouvi-la convidar a filha para algo que não seja uma ida ao castigo. Vai ser bom para ela, para a C., para seus vizinhos.

30 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (4) O ano da bossa

O texto que está abaixo foi publicado no dia 19/12/90, na Folha. Era uma crônica sobre o show ocorrido dois dias antes, no Scala 2, no Rio, em homenagem ao cantor Lúcio Alves - na época, muito doente. A arrecadação do espetáculo seria para pagar seu tratamento. O show foi espetacular, apesar da previsível ausência de João Gilberto. Republico o texto para fechar 2007 e abrir 2008, quando serão comemorados os 50 anos da bossa-nova.
Mas o mesmo mesmo é clicar no link http://www.youtube.com/watch?v=DmV0TcTNJ3o , ele leva ao Youtube, a uma interpretação espetacular de "Garota de Ipanema" feita por Tom & João.
Feliz Ano-Novo, que ele seja compatível com o espírito da bossa-nova. Sem saudosismo, claro, mas com esperança de tempos mais delicados. Um ano cheio de bossa.


Músicos fazem show saudosista no espírito bossa-nova

Fernando Molica
Da sucursal do Rio

Bem que Agnaldo Timóteo, com a sutileza de um porta-aviões nuclear, tentou arrebentar o delicado cais destinado aos barquinhos da bossa-nova. O diretor musical do show, o pianista Alberto Chimelli, também ameaçou acinzentar com uma tempestade “fusion” o céu azul das canções regidas pela trindade sol-sal-sul. Mas Tom Jobom, Os cariocas, Tito Madi, Sebastião Tapajós, Doris Monteiro, Miltinho, Caetano e Leny Andrade souberam tomar o leme e fazer o show em benefício de Lúcio Alves navegar em águas compatíveis com o estilo do homenageado.
Claro, o saudosismo foi inevitável, Tito Madi chegou a cantar uma música que fala de um Rio “que saiu dançando amor”; Caetano Veloso pescou “Fim de semana em Paquetá” – exemplos de uma cidade cuja sutileza foi fundamental para gerar um movimento como a bossa-nova. O Rio hoje está mais para a voz peso-pesado de Agnaldo Timóteo e a decadência expressa nos espelhos e dourados do cenário do show, o Scala 2, no Leblon, zona sul do Rio.
A beleza das canções e a qualidade de seus intérpretes permitiram que o show não se restringisse a um exercício de arqueologia musical. Os acordes de Tom Jobim, a afinação de Tito Madi, a técnica de Tapajós, os audaciosos arranjos de Os Cariocas e os improvisos de Leny Andrade demonstraram, mais uma vez, que a bossa-nova driblou os riscos da velhice e se colocou na posição dos clássicos. Prova de sua vitalidade é que continua a influenciar muita gente no Brasil e o exterior – a atual fase acústica de Caetano, um dos mais ousados artistas contemporâneos, não deixa de ser resultado de uma visita a essa fonte bossa-novista. E é esta condição clássica que vai permitir que a bossa-nova exista mesmo depois deste discreto modismo nostálgico gerado pelo livro “Chega de saudade”, de Ruy Castro.
No show, a bossa-nova foi mais um referencial. Alguns dos artistas que se apresentaram começaram antes de João Gilberto, no final dos anos 50, revolucionar a música brasileira. Quase todos, porém, entraram no clima da bossa-nova. Até mesmo as piadas do apresentador Ivon Cury ajudaram a criar este ambiente meio maroto e elegante, cool, como se dizia há alguns poucos anos.
O, digamos, impacto da presença de Agnaldo Timóteo cantando “Por causa de você” foi neutralizado, em seguida, por Tom Jobim. Depois vieram Caetano, e Os Cariocas. Esses conseguiram injetar cheiro de mar até na paulistíssima “Sampa”. Ah, teve também Cauby Peixoto, que entrou cantando “Conceição” e fechou sua parte com “People”. Nada disto é bossa-nova, mas, depois de Agnaldo Timóteo, até que pareceu muito natural.

28 de dezembro de 2007

"Seu" príncipe



D. Pedro Gastão, 94, o neto da princesa Isabel que morreu no dia 27 na Espanha, era uma figuraça. Nascido na França - a família real estava no exílio desde o golpe que proclamou a República -, ele morou muitos anos em Petrópolis num palácio, o Grão-Pará, anexo ao Museu Imperial. Adorava cavalgar pela cidade, onde era chamado de " 'seu' príncipe ". Estive com ele, creio, umas duas vezes, para entrevistas sobre a possibilidade do retorno da monarquia. Ele era engraçado, charmoso, irônico. Dizia que não gostava de revelar o nome do seu cavalo preferido - "Fardado". "Naum fica bem parra um prríncipe andarr porrr aí chicoteando um 'fardado'..." - justificava, com seu forte sotaque francês.

O sotaque e a idade fizeram com ele fosse afastado da campanha pela monarquia na época do plebiscito sobre forma e regime de governo, em 1993. Ele ficou chateado com sua exclusão - até porque, na época, andaram espalhando que a escravidão voltaria com a eventual vitória dos monarquistas. Para ele, nada melhor que um neto da princesa Isabel para garantir que o boato era completamente absurdo.

Grande contador de historias, só se referia ao rei Juan Carlos, da Espanha, como "meu sobrrrinho". Afinal, d. Pedro era casado com d. Esperanza de Bourbon, tia do rei. O saudoso e querido amigo Cláudio Lacerda contava uma ótima história do d. Pedro Gastão. Segundo ele, o príncipe soubera que uma professora de Petrópolis andava ressaltando em sala de aula o apetite sexual de seu trisavô, o imperador d. Pedro 1o. D. Pedro Gastão foi então à escola, conversou com a turma, com a professora, concordou que o antepassado era mesmo um grande conquistador. E concluiu:

- Só esperrro que a senhorrra naum tenha esquecido de dizer aos alunos que ele proclamou o independência de Brrasil...


Montanhas



Lagoa, 24/12/07.

O poente na espinha
Das tuas montanhas
Quase arromba a retina
De quem vê
("Carioca", Chico Buarque)
Foto do pôr-do-sol é um grande chavão (ainda mais depois de um post elogiando Roberto Carlos...). Mas a beleza do cenário justifica.

27 de dezembro de 2007

O rei e eu

Dia 25 foi dia de Rei. Aos primeiros acordes de "Emoções", minha mulher reclamou: "É tudo igual!" "É claro que é, assim que é bom", retruquei. Em seguida, na hora do "Detalhes de uma vida/histórias que eu contei aqui", previ: "Agora o arranjo vai fazer a citação de 'Detalhes' ". Fez, claro. Ainda anuncei lá pela quarta música: "Vai entrar um break." Nos especiais de Roberto Carlos, até a hora do comercial é previsível.

Mas como é possível se elogiar tanto algo tão repetitivo? Boa pergunta. Tenho lá algumas pistas. Roberto Carlos foi a trilha sonora da minha infância, eu tinha quase todos os seus discos. Depois, nos afastamos: adolescente não poderia gostar das breguices reais. Alguns anos depois, ele piorou: música pra caminhoneiro, pra mulher pequena, pra mulher míope; uma outra, oportunista que só ela, pegava carona na onda verde-amarela da Nova República. Argh! Mas, no primeiro Rock in Rio (é, eu o cobri), tremi pacas ao fazer rápida entrevista com o rei, que tinha ido à Cidade do Rock assistir à desastrada apresentação do Erasmo Carlos.

É terrível dizer isso, mas, de uma certa forma, o drama e a morte de Maria Rita reconectaram RC a grande parte de seu público. Ele ressurgiu dos infernos cheio de feridas e dúvidas. Voltou menos carola, mais humano e, talvez por isso, mais real (real aí nos dois sentidos). Tão humano que cometeu a burrice de proibir o ótimo "Roberto Carlos em detalhes", biografia escrita pelo fã Paulo Cesar de Araújo. RC desconhece o quanto o livro é bom e importante, quanto o celebra. O relato de suas tragédias pessoais - o acidente que lhe custou uma perna, a cegueira do filho, as mortes da ex-mulher e de Maria Rita, a descoberta do TOC - o torna mais próximo de seus, vá lá, súditos. Arrisco dizer: são dramas que, acompanhados que foram pela população, deram aquele tom de tragédia sempre presente nas grandes sagas de famílias reais. Lembro que a história da perna sempre foi um segredo ridículo: até em Piedade todo mundo sabia, mas ninguém falava nisso em público. Os problemas de saúde do filho e de Maria Rita foram acompanhados como novela - o próprio RC nunca os escondeu. É meio complicado quando ele, agora, vem pedir respeito à sua privacidade.

Aos trancos e barrancos, RC construiu uma história de identificação com boa parte do público brasileiro. De certa forma, ele nos joga na cara que somos sim meio bregas, que - de vez em quando - gostamos de arranjos gradiloqüentes, de versos meio óbvios, de um bolerão. Como diz Antônio Torres, sertanejo e especialista em Brasil: samba é música de centro urbano, o país como um todo gosta mesmo é de bolero. Tentando resumir: talvez RC nos diga, a cada fim-de-ano, que não somos tão bons como gostaríamos de ser, que não conseguimos superar nosso carinho por aquelas canções. É possível que esse amor seja também, mas não apenas isso, uma prova de um fracasso, de uma rendição à mesmice. Mais: um indício de que o país não mudou tanto assim nos últimos 40 anos. Deprimidos com a falência de nossos sonhos de redenção, de superação do atraso (econômico, social e mesmo estético), simbolicamente nos sentamos naquele bar vagabundo de beira de estrada e pedimos mais do mesmo. Pode ser, mas é também algo que nos recoloca em contato com nossas histórias, com nossas limitações. O RC ali, no fim de cada ano, dá uma idéia de permanência, o que não é pouco, num país que muda tanto. Mudamos e permanecemos - e não deixa de ser emocionante ver o rei, já meio velhinho, tendo que recorrer a monitores colocados no palco para não esquecer as letras das músicas. Reis também envelhecem.

Ah, ele não cantou "Detalhes". Imperdoável. "Até os erros do meu português ruim" é um verso comparável à narrativa do band-aid que Aldir Blanc colou no calcanhar da melodia de João Bosco.

25 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (3) - Escolas de samba

O texto abaixo foi publicado em 1994, no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo. Era uma tentativa de reflexão sobre as relações entre as escolas de samba, suas comunidades de origem e a presença, nos desfiles, de muitas e muitas pessoas externas a esse universo. Achei legal publicá-lo aqui depois que li, no blog do Aydano André Motta (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/chopedoaydano/) , um relato de cortar o coração sobre o ensaio do Império Serrano no sábado passado. No texto, o Aydano fala em "neófitos do samba", que migram de quadra "segundo a moda". Nada contra, claro - os ensaios são abertos, cada um tem o direito de escolher seu local de diversão. O que assusta é a possibilidade das escolas dependerem cada vez mais deste público de arribação. Enfim, nem sei se concordo com tudo que escrevi há quase 14 anos. Mas, em plena ressaca natalina, é melhor republicá-lo do que tentar uma nova reflexão. Feliz Natal! Ah, o título foi da redação da Folha, não concordo muito com ele...


20/02/94

Escolas cariocas viram cordão de turista

FERNANDO MOLICA
Da Sucusal do Rio

Talvez sem querer, Gilberto Gil forneceu régua e compasso para a discussão em torno da eventual presença excessiva nas escolas, em especial, na Mangueira, de pessoas de fora do mundo do samba. Ele foi ao ponto ao detectar o que chamou de "caráter devocional" do desfile e ao citar o aspecto ritualístico da manifestação.Este rito e esta devoção estão, como ele também citou, ligados à luta das comunidades onde as escolas foram geradas. Estas características é que definem os limites da expansão do desfile. As escolas podem fazer tudo, mas não podem perder a fonte que as alimenta e legitima. O fundamental é manter o desejo de uma comunidade em se fazer representar com dignidade.A Beija-Flor, a Mocidade e a Imperatriz - os melhores exemplos de escolas que desabrocharam a partir da atuação de bicheiros/patronos - já existiam muito antes de serem adotadas. Os bicheiros não criaram estas escolas de samba. Foram em busca delas para tentar absorver um pouco da legitimidade que expressavam.Alguns bicheiros, como "Capitão Guimarães", foram menos sutis e acabaram rejeitados. Guimarães entupiu a Vila Isabel de dinheiro, mas acabou perdendo o poder na escola, campeã em 88 já sem a incômoda presença do patrono. Assim como os bicheiros, as iniciativas que visam dar um suporte empresarial às escolas têm de saber respeitar seus limites. Não podem se arvorar em substituir os poderes acumulados ao longo de - no caso da Mangueira - quase 60 anos.Mesmo que as agremiações tenham crescido e transcendido os limites de suas comunidades originais, a presença majoritária no desfile de pessoas a elas ligadas é fundamental para manter este elo que garante a sobrevivência da agremiação. Os bicheiros mais esclarecidos sabem disto: tanto que, para garantir um bom padrão de desfile e manter sua popularidade passaram, cada vez mais, a investir na compra de fantasias para os componentes que não teriam como adquirí-las - os antigos integantes das escolas estavam engrossando apenas uma ala, a "da força", eufemismo que caracteriza os empurradores de carros alegóricos.Uma escola perde sua função se não for mais vista como representante daqueles que a construíram e sim como um play-ground de aluguel ao alcance de quem tenha dinheiro para comprar uma fantasia. Escolas que são, não sobrevivem com um número excessivo de alunos que comparece apenas na festa de formatura com um diploma comprado nas mãos exibindo o ar bobo de quem enche a boca para dizer que é Mangueira ou Portela, mas que sobe ao morro apenas na condição de sequestrado.O ritual do desfile se completa com a presença, entre o público, de pessoas que cresceram aprendendo a gostar daquele espetáculo e que não tem vergonha de ouvir samba fora do carnaval. Fruto do crescimento e institucionalização dos desfiles, o sambódromo não pode ser um gueto para cariocas, mas, ao contrário do que afirmou o presidente da Riotur, José Eduardo Guinle, não foi feito principalmente para os turistas. Gil falou em devoção e ritual. As religiões criaram, ao longo de milênios, cerimônias bélissimas que atraem e fascinam o mais renitente ateu. Estas religiões, porém, morreriam se transformadas em macumba para turista. Elas precisam de fiéis que não apenas vejam, mas que compartilhem seu ritual.

24 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (2) - Tom & João

Esta reportagem, que abre no blog as homenagens aos 50 anos da bossa-nova, tem uma história curiosa. Em dezembro de 1992, a Brahma promoveu no Teatro Municipal do Rio um reencontro entre João Gilberto e Tom Jobim: havia muito tempo que eles não dividiam o mesmo palco. A participação de Tom no show de João seria o ponto alto do espetáculo e sequer chegou a ser divulgada. Poucos dias antes, a Folha de S.Paulo recebeu uma proposta interessante: dois de seus repórteres seriam colocados nos bastidores do show. Um seria o garçom do João Gilberto no Municipal; o outro assistiria, sem se identificar como jornalista, ao ensaio entre os dois grandes da bossa-nova. Fiquei com medo de derrubar café-com-leite no João, a condição de fã do baiano potencializaria minha já preocupante condição de desastrado. O Plínio Fraga assumiu o cargo de garçom e eu virei aspone de um sujeito que teria acesso ao ensaio, que ocorreria numa suíte do Caesar Park de Ipanema. No dia 09/12/92, a Folha publicou o texto abaixo:

Apresentação teve ´ensaio secreto´no domingo

Cantores se encontraram no Caesar Park do Rio


Chega de saudade: depois de muitos anos - seis ou 15, as versões são conflitantes - João Gilberto e Tom Jobim voltaram a se encontrar no domingo. Nada de abraços e carinhos sem ter fim: sorrisos, um aperto de mão, um arrastado "Oi, Tom". Na véspera, João e Tom haviam conversado por uma hora e meia por telefone.
O encontro foi às 18h30 na suíte do 12o. andar do hotel Caesar Park, em Ipanema, zona sul, onde João passou a semana que antecedeu ao show do Municipal. Acompanhado da mulher, Ana, Tom chegou às 18h20. João havia saído.
Ao chegar à suíte, Tom se decepciona ao ver o piano elétrico reservado para o ensaio. Calça branca, camisa larga branca e amarela, chapéu de palha, balança a cabeça ao tocar alguns acordes. "Não dá", diz. Entre uma nota e outra, desiste de acender o charuto. "O João vai ficar zangado", justifica.
Nisto, chega João. Cumprimenta Tom e Ana, lamenta a quebra da alça da caixa de seu violão e reclama do ar-condicionado. Preocupado com o show, João não dormia havia três dias - preocupação semelhante o fizera pedir, por três vezes, o adiamento da apresentação de anteontem, que estava prevista para agosto.
Ainda na suíte, João canta "Chega de Saudade", que viria a abrir o bis no show. Decepcionado com o piano, Tom sugere que o ensaio seja em sua casa, o que é aceito por João. À espera do elevador, um silêncio constrangedor. Tom quebra o gelo: elogia a participação de João no comercial da Brahma e critica a "world music". João concorda com um muxoxo.
No hall, Tom caminha na frente, João, de paletó cinza e tênis brancos, vai mais atrás, agarrado ao violão: passo tímido, quase caipira, pés um pouco virados para dentro. Atravessam o vidro da portaria do hotel e encaram, um ao lado do outro, a claridade de Ipanema. Vistos de costas, são personagens de uma não-realizada foto histórica: as duas silhuetas em contraluz emolduradas pelo mar de Ipanema.
O ensaio durou três horas. Anteontem, às 20h2o, eles voltaram a ensaiar no Municipal. Já havia uma certa cumplicidade. Tom cantava uma brincadeira com o nome do parceiro de palco: " Viva o João Gilberto/ Viva o João do Prado/Vivia o João Gilberto Pereira de Oliveira."
João estimulava Tom a improvisar mais em "Chega de Saudade": "Faça como quiser, Tom", dizia, sentado a seu lado, em uma ponta do banco do piano. Pode ter sido o reinício de uma bela e produtiva amizade.

23 de dezembro de 2007

A vila de Piedade



A vila é essa aí, ó. A foto é de hoje, 23 de dezembro. As casas cresceram, ganharam andares, perderam as fachadas originais. Não havia as grades e muros que delimitam as calçadas. Mas continua sendo um bom lugar. Ao fundo, o prédio onde morei.

22 de dezembro de 2007

Natais de Piedade (2)

Quem tem por volta de 30/35 anos - ou menos - não tem idéia do impacto causado pela invenção do termômetro de peru. Ou do peru com termômetro, como queiram. Trata-se daquele dispositivo de plástico vermelho, enfiado na carne da ave, que indica o momento em que a dita cuja pode ser retirada do forno: o "apito", como se costumava dizer (ainda que tal dispositivo não emita nenhum som. A emissão de som por um peru acabaria de vez com qualquer resquício de sobriedade que se deseja numa ceia de Natal).
Mas, crianças, acreditem: os perus não nascem com aquele, vá lá, "apito". O tal objeto é colocado nas aves que passam por um processo industrial, que também inclui a adição de temperos. Tudo para acabar com o drama que tornava ainda mais tensos os dias que antecediam o Natal. Até onde me lembro, não havia, na vila dos meus avós, em Piedade, uma espécie de perucídio natalino. Os perus não eram mortos ali. Lá pelo início da segunda quinzena de dezembro, as donas-de-casa iam ao aviário (ficava na avenida Suburbana, creio) para escolher o seu peru. "É aquele ali, aquele gordinho." No dia 23, ou no próprio dia 24, o peru era morto e entregue à dona, que o levava para a padaria, onde ele seria assado. Entenderam? Perus eram assados na padaria, não nas casas. Não sei se os perus da época eram maiores, se não cabiam nos fornos domésticos, se exigiam mais calor, se consumiam boa parte do gás armazenado nos botijões domésticos. Mas lembro que era difícil determinar o ponto exato em que o peru ficaria pronto. Nas poucas casas que assavam seu próprio peru eram formadas juntas de especialistas, vizinhas eram chamadas a opinar. Dava muito trabalho cuidar do peru natalino, daí a opção pelo forno da padaria.
Foi assim até meados da década de 70, quando uma empresa - a Sadia, creio - inventou o peru temperado e com o tal do apito. Claro que o apito - um negócio que pulava do peru e que, ainda por cima, era vermelho - fez nascer uma nova geração de piadas em torno das acepções da palavra "peru". Piadas que eram repetidas a exaustão e que ganhavam novo fôlego a cada rodada de "Sangue de boi" ou de champanhe (sim, champanhe, champanhe nacional, espumante é termo etilicamente correto do qual nunca tínhamos ouvido falar) George Albert ou Peterlongo.

Não, esqueçam: não há a menor chance de encerrar esta crônica com uma frase de caráter nostálgico que apóie a simplificação do ritual do preparo do peru e que denote algum tipo de saudade da poesia dos perus de outrora. Que mané saudade de peru! Eu, hein.

21 de dezembro de 2007

Natais de Piedade (1)

Quem é do Rio sabe, ou deveria saber: Piedade é um subúrbio da Central, ou seja, é cortado pela linha férrea da antiga Central do Brasil. É que lá que fui criado, é de lá que vêm minhas memórias das festas de fim-de-ano. As noites de 24 e 31 de dezembro eram sempre passadas na vila onde moravam meus avós e onde, até hoje, vivem dois de meus tios.
Quando eu era criança, lá em Piedade, achava esquisitos os desejos de "bom Natal pra você". Repare: "bom Natal", e não "feliz Natal". Esta é expressão de anúncio de TV de cartões de boas festas; as pessoas, pelo menos em Piedade, desejavam um "bom Natal". É mais modesto e razoável: felicidade é algo mais amplo, difícil de classificar, de checar: será que este é um Natal feliz? Estou feliz agora? Não é simples responder. É bem mais fácil avaliar se aquela festa, a reunião familiar, está sendo boa ou não. Se a comida está boa, se os presentes são razoáveis.
E eu, na falta de algo melhor para fazer, conseguia implicar com aquele negócio de "bom Natal" pra cá e pra lá. Na minha cabeça - desde então já meio complicada, admito - fazia mais sentido direcionar os tais votos para o ano que estrearia dali a pouco do que reduzir a aposta para uma simples noite - a de 24 para 25. A relação custo-benefício era mais evidente: os bons tempos, se concretizados, se alastrariam por um ano inteiro, não apenas por algumas horas. Sim, poucas: pelo menos lá em Piedade, a celebração do Natal herdara das comemorações de Ano-Novo uma certa lógica da virada, o Natal era algo que ocorria entre as oito da noite do dia 24, quando íamos para a vila dos meus avós, e, no máximo, as duas da madrugada seguinte. Neste espaço de tempo, comíamos, bebíamos, abríamos presentes. Dia 25 era apenas uma conseqüência, uma suíte, para usar um jargão jornalístico: não dava pra achar muito especial um dia em que o almoço chegava em forma de peru frio desfiado, acompanhado de farofa gelada e maionese (por "maionese" entenda-se salada de batata afogada na maionese propriamente dita).

Também achava estranhas as manifestações de depressão que ocorriam naquele curto intervalo de tempo - eram mais concentradas, geralmente afluíam por volta da meia-noite. Hora em que batia em muita gente a sensação de que mais um ano fora perdido. O mea-culpa natalino explodia em choro, em pedidos de desculpa, em promessas de vou mudar, a senhora vai ver só. Não mudava, claro: no ano seguinte, o sujeito repetia a mesma cena. Esta é uma das imagens mais marcantes de meus Natais: era a noite em que, todo ano, a expectativa do Papai Noel era substituída pela certeza da performance de um sujeito meio bêbado que parecia incorporar o Ébrio de Vicente Celestino naquela vila suburbana. Desculpas pedidas, ele entrava numa espécie de hiato vital: era como se não vivesse aquela semana entre o Natal e o Ano-Novo. Ficaria como que na muda. Na festa do dia 24, ele pedira perdão pelas besteiras feitas a partir de 1o. de janeiro anterior; na vindoura, a do dia 31, se encheria de esperança para gritar que dali pra frente, tudo seria diferente. Não seria, claro, mas quem haveria de estragar a rendenção e os sonhos alheios? Caramba, estávamos no Natal, não dava pra cortar assim a certeza de quem imaginava amananhecer e constatar que seu sapatinho estaria cheio de doses cavalares de juízo.

18 de dezembro de 2007

A rosa de número 6.001

No plantão do último fim-de-semana acabei indo cobrir o tiroteio entre policiais e bandidos na Mangueira. Estive no local e, depois, já no fim da noite de sábado, fui para o Souza Aguiar, para onde tinham sido levados dois feridos, duas vítimas de balas classificadas como perdidas: a menina Fabiana, de 11 anos, e seu avô Fernando, de 60.
No início da madrugada de domingo, minha conversa com um tio da estudante, no pátio do hospital, foi interrompida por gritos: o pai, um outro tio e um ou dois vizinhos saíam desesperados do interior do Souza Aguiar. Tinham acabado de saber que Fabiana morrera. O homem com quem eu conversava correu na direção do grupo, eu me juntei aos outros jornalistas. O pai de Fabiana chorava sentado num banco, cercado pelos parentes e vizinhos. O cinegrafista e os fotógrafos registravam a cena da forma mais diiscreta e respeitosa possível: ninguém usou flash, nenhuma luz foi acesa.
Um dos tios de Fabiana - irmão da mãe dela, parece - atravessou o pátio do hospital gritando, batendo em portões. Logo em seguida chegou a mãe da menina, acompanhada por duas outras mulheres. Ela já sabia da notícia. Chorando muito, andou a esmo pelo pátio. Depois, ela se sentou numa calçada que fica na área externa do hospital - a primeira página do "Globo" de ontem publicou esta imagem.
Alguns minutos depois, aos soluços, uma das parentes da menina, conversou com os repórteres: não era entrevista, era mais um despejar de frases meio desconexas, que alternavam críticas à atuação da polícia com um lamento que, naquela madrugada, seria repetido como um mantra por outros que ali estavam compartilhando do mesmo drama: "Não moramos em favela porque gostamos, moramos porque não temos dinheiro para morar em outro lugar."
No dia seguinte, pelo Google Maps, vi que a menina morava com os avós paternos numa rua asfaltada, urbanizada, um acesso ao morro do Telégrafo, ali na Mangueira. Muitas favelas não têm mais como crescer para cima dos morros, espalham-se então para baixo, para a parte urbanizada da cidade. Seguem uma logica razoável: se o poder público não conseguiu levar o Estado para o morro, o morro leva a favela para o asfalto. O entorno das favelas acaba favelizado, é só ver o que aconteceu em volta do Alemão e com os prédios que ficam na subida do Dona Marta, em Botafogo.
No domingo, tive que passar pelo velório da menina. Pedimos permissão para gravar algumas imagens do lado de fora da capela, perguntei se os parentes poderiam nos ceder uma foto da menina. O tio com que conversara na véspera foi até ao lado do caixão e retirou de um arranjo de flores uma foto de Fabiana, vestida com uma roupa de Papai Noel. Ao ver que a foto estava sendo entregue a um jornalista, a avó paterna da menina gritou e saltou na minha frente. Disse que não, que não. Que não queria a foto da neta nos jornais, na TV. Pedia desculpas, e dizia que não, que não. Procurei acalmá-la, afirmei que, claro, ela tinha todo o direito de não ceder a imagem, não, não ficava chateado - e, por favor, a senhora não precisa pedir desculpas. A avó então começou a falar da neta, a contar que ela era ótima aluna, que só tirava boas notas. Interrompia a narrativa para perguntar-se - "Como vou viver sem minha pretinha?" -, e continuava a lembrar da menina. A Fabiana, dizia, tinha muito medo de ser atingida por uma bala. Disse que ela tinha visto na TV aquelas seis mil rosas colocadas em Copacabana, uma manifestação que chamava a atenção para seis mil pessoas mortas em situações violentas:
"Aí ela me disse: `Vó, eu não quero ser uma rosa daquelas.´ E hoje, moço, ela é a rosa seis mil e um."
Depois disso, só me restava fazer um último carinho na avó e sair logo da capela, não havia como gravar nada ali.

A bolsa da Funarte

O colega em dobro Marcelo Moutinho - é escritor e jornalista - levanta em sua página um tema importante e delicado, sobre questões que envolvem o resultado da Bolsa Funarte de Incentivo à Criação Literária. Eu não apresentei nenhum projeto, ele também não. Portanto, não estamos trabalhando em causa própria. Mas é legal discutir o assunto. Vale dar uma conferida em www.marcelomoutinho.com.br . Anotem o endereço, sempre é bom passar por lá.

17 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (1)

Publicado na "Folha de S.Paulo" em 15/01/96.

Túlio & Télvio

Fernando Molica

RIO DE JANEIRO - A contratação do atacante Télvio pelo Botafogo tem a cara do Brasil. Ah, que Télvio é esse? É o irmão gêmeo de Túlio.
Ao contrário do irmão, artilheiro do campeão brasileiro, Télvio é dono de um currículo limitado. Foi parar no Botafogo graças a Túlio, que incluiu a contratação do irmão no pacote que impediu sua suposta venda para o Japão.
Túlio agiu de acordo com uma das mais fortes tradições brasileiras: a de arrumar um emprego público para um parente. Os clubes não são repartições públicas ou empresas estatais, mas têm lá suas semelhanças. Assim como acontece com as instituições públicas, a propriedade de um clube é meio difusa.
Esses clubes são geralmente administrados de forma amadora: ao contrário do que ocorre em empresas privadas, seus dirigentes não são punidos pelos eventuais prejuízos por eles gerados.
Assim, os clubes acabam vítimas de um fenômeno semelhante ao que atinge repartições públicas ou estatais: o que deveria pertencer a todos acaba sendo considerando como não sendo de ninguém. Logo, não há nada de errado em patrocinar uma sangriazinha aqui ou ali.
Ao longo dos séculos, o Estado brasileiro foi transformado em um empregador irresponsável. Isso com o incentivo da maioria da população, ávida por um emprego público, uma colocação.
A conta do empreguismo, que era paga pela sociedade, hoje desaba também sobre os outrora beneficiados, punidos com a retração de salários e com a falta de perspectivas profissionais.
Apesar de todas as discussões sobre nepotismo e empreguismo, para muita gente político bom continua a ser aquele que garante o futuro de seus eleitores na forma de um emprego público.
Túlio brilhou no campeonato do Botafogo, agora ajuda a transformar o clube em uma Botafogobras ou, como diria o deputado Roberto Campos, uma Botafogossauro. Nenhuma novidade: na lógica nacional, empreguismo ruim é aquele que beneficia apenas aos outros.
*
Por último: deu na Folha que 67% dos cariocas têm mais medo do que confiança na Polícia Militar. É impossível não recorrer ao apelo de Chico Buarque: ''Chame o ladrão''!

15 de dezembro de 2007

Niemeyer - beleza e/ou utilidade

Em primeiro lugar, parabéns a Niemeyer, incansável produtor de beleza. É admirável vê-lo chegar aos cem anos lúcido e produtivo. Seu interesse em participar de grupos de estudos, em continuar aprendendo, chega a ser emocionante. Mas, enfim, não consigo deixar de achar - com todo o respeito - que ele é mais escultor do que arquiteto. Arquitetura é uma forma de arte, sem dúvida. Mas, diferentemente da música e da pintura e mesmo da literatura, a arquitetura não pode ser dissociada de um objetivo prático – ainda que a produção do belo não deixe de ser também algo útil e necessário. Talvez o maior desafio da arquitetura seja esse: produzir uma beleza que não entre em choque com a função de um determinado prédio, com o conforto de quem vai usá-lo ou habitá-lo. E é aí que implico com Niemeyer e com seu endeusamento (logo ele, ateu de carteirinha). É como a velha piada: o bom é morar de frente para uma casa projetada por Niemeyer, não morar nela.

Implicância minha? Talvez. Mas quem gosta de samba e freqüenta o sambódromo sabe como a obra é ruim. Linda, mas ruim. Tanto que sofre sucessivas adaptações. As arquibancadas são pequenas e distanciam o público do desfile. Os intervalos entre cada um dos blocos de concreto é assustador, contribui para esfriar a apresentação das escolas. Tanto que os espaços acabaram sendo preenchidos por novas construções, que abrigam camarotes e cabines de jurados.

Para os mais novos: sabe aquele lugar das cadeiras de pista e frisas? Originalmente seria uma geral - é, Niemeyer e o saudoso Darcy Ribeiro (sujeito brilhante, mas que não entendia nada de carnaval) bolaram um lugar para as pessoas assistirem o desfile em pé! Programão, varar a madrugada de pé. Se não me engano, isso só ocorreu no primeiro ano do sambódromo; depois, os espaços foram ocupados por cadeiras.

Alguém aí já assistiu os desfiles do setor 4 das arquibancadas? È um dos piores locais do sambódromo, fica recuado em relação ao setor 2, aquele comprido, que abriga camarotes. Com o recuo, quem está ali, naquela arquibancada, fica ainda mais longe da pista. E, pior, demora mais a ver a escola chegar, seu campo de visão é menor, tem como obstáculo o minhocão de camarotes. Mas por que então foi projetado assim? Andei muito pelo sambódromo para tentar entender isso. E acho que descobri: o setor 4 foi recuado para permitir, já a partir dali, uma centralização do arco monumental que marca o fim da pista. Basta olhar da Presidente Vargas: lá de longe, o arco não fica no centro da pista. Esta centralização só ocorre nos dois últimos setores: os formados pelos blocos 4 e 11 (um em cada lado da pista) e 6 e 13 (os da Apoteose). Ou seja, em nome da beleza – a centralização do tal arco –, a visão do público foi prejudicada. Não consigo ver nisso um exemplo de boa arquitetura.

E por falar no arco: ele é muito bonito, mas atrapalha a dispersão das escolas, trata-se de um obstáculo no fim da pista. Isso, claro, sem falar na Apoteose em si, uma intervenção autoritária na lógica linear dos desfiles bolada pelo Darcy Ribeiro: ele queria que, no fim dos desfiles, cada escola evoluísse como num baile de carnaval, “uma cobra procurando o próprio rabo” – costumava dizer. Foi outra novidade que acabou abandonada pelas escolas por ser incompatível com o espetáculo. Resultado: mais cadeiras para tapar aquele latifúndio até as arquibancas. Na Apoteose, as arquibancadas ficam ainda mais longe da pista.

Resultado: o sambódromo ficou pequeno (as maiores arquibancadas são as piores – setores 1, 6 e 13) e não acabou completamente com o monta-desmonta. Todo ano a Passarela do Samba tem que que ser adaptada para o desfile, com a colocação de estruturas metálicas que suportam cadeiras de pistas e frisas. Faltou ali algo fundamental, a humildade do arquiteto diante da função de sua obra. O resultado é muito bonito, mas pouco prático. É só perguntar pra qualquer sambista.

14 de dezembro de 2007

Dialética dos "inhos"

Ao dar uma olhada no arquivo do antigo quase-blog vi um post sobre "inhos". Um post, acreditem, favorável aos "inhos" - aos "inhos" da seleção brasileira que então disputava a Copa da Alemanha: Juninho, Cicinho, Robinho. Hoje, falar em "inho" é falar naqueles policiais presos por supostas ligações com bicheiros. Bem, no post eu dizia: "Que venham os inhos." Que fique claro, eu tratava dos jogadores da seleção.

No canto da cabina

Tem alguém aí? Bem, eu estou aqui. De volta após quase um ano de ausência. Volto de cara nova - até com uma cara, aí à direita, ó. É uma foto da última Bienal do Livro, aqui no Rio. Bem, já que citei a Bienal, recomeço com o trecho de um livro. Uma frase tirada do belíssimo "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra", do Mia Couto (ele esteve aqui na última Flip, participou de um debate com o Antônio Torres). A frase é tão bonita que deixei marcada a página onde ela está publicada, logo no início do livro: é a 18. Esse trecho do livro, editado pela Companhia das Letras, relata a volta do personagem principal para a ilha em que nascera, em Moçambique. O sujeito estava triste, angustiado, sem saber o que encontraria por lá - fora chamado para o enterro do avô. E o Mia Couto traduz esse sentimento com uma frase espetacular: "Entro na cabina do barco e sozinho-me num canto." Bonito pacas, né?

Enfim, ao som da prosa do Mia Couto tento recomeçar este blog, que volta de nome e cara novos. O nome é uma referência ao título do romance que lançarei em abril pela Record: "O ponto da partida". Que eu não fique sozinho, no blog e no livro.

8 de dezembro de 2006

Parabéns pra você, Fogão, pelos seus aniversários!

Hoje, 8 de dezembro, é dia do aniversário do Botafogo. Melhor, dia de um dos aniversários do Botafogo. No caso, do Botafogo de Futebol e Regatas, fundado em 1942, resultado da fusão do Botafogo, um clube de regatas, com o Botafogo, um clube de futebol. Parece engraçado, mas temos três aniversários, três datas para comemorarmos, três dias para envelhecermos. Em 2004 comemoramos nosso primeiro centenário, certo? Errado. Há dois anos comemoramos nosso segundo centenário. Nosso primeiro centenário foi comemorado em 1994 - tenho um selo dos Correios que prova a efeméride.
Explico: em 1894 foi criado o Club de Regatas Botafogo; em 1904, o Botafogo Football Club e, em 1942, em 8 de dezembro, o Botafogo de Futebol e Regatas, resultado da fusão dos outros dois. Uma fusão apressada por uma tragédia: a morte de um jogador num jogo de basquete entre as duas equipes. Um clube era de regatas; o outro, de futebol, mas se fundiram em conseqüência de um jogo de basquete: nada é simples, eu disse! O nome do jogador era Armando Albano, atleta do Football. Ele morreu na quadra, e desta morte nasceu o Botafogo de Futebol e Regatas. Nascemos, portanto, de uma tragédia, como se nossa mãe tivesse morrido no parto. Podem chorar, a história é triste e bonita pacas.
Enfim: daqui a 36 anos estaremos comemorando nosso terceiro centenário, isto, com 148 anos de história. Envelhecer 300 anos em 148 não é para qualquer um, chega a ser assustador. Parece história do Malba Tahan, aquele homem que calculava. Pra quem acredita: somos regidos por três signos: Câncer (1o. de julho, Regatas); Leão (12 de agosto, Football) e Sagitário (8 de dezembro, BFR). Três signos, repito. Fora os ascendentes e fora a Estrela, a solitária. Depois disso tudo, vocês acham que é simples torcer pelo Botafogo?

12 de setembro de 2006

Nós, os alemão

Preocupados que estamos com a violência que se expressa nas armas de fogo empunhadas pelos nossos, digamos, inimigos de classe - os bandidos que nos assaltam e ameaçam nossas vidas -, nos esquecemos de outro adversário, aquele que cultivamos em nossas casas, em nossas famílias, em nós mesmos. Somos, de um modo geral, na prática, defensores de uma cultura da morte, do desrespeito. Vivemos em uma sociedade que volta e meia protesta contra radares de controle de velocidade, que elege irresponsáveis que se candidatam vociferando contra uma suposta indústria das multas. Chegamos ao cúmulo de instituir nos túneis e auto-estradas, avisos que alertam que é hora de diminuir a velocidade porque estamos a nos aproximar do radar. Pois, como diriam aqueles nossos antepassados europeus (que devem rir muito dessa nossa prática).
Temos uma legislação que nos desobriga da submissão ao bafômetro; nos orgulhamos de poder dar aos nossos filhos carros cada vez mais potentes e, se possível, blindados – assim escaparão dos bandidos. Fingimos não ver que esses filhos, aos 15/16 anos, freqüentam lugares proibidos para menores de idade, locais onde quase todos consumirão bebidas alcóolicas - o dono da boate é um dos nossos, um cara legal. Mais ainda: nas festas de adolescentes é comum que seus pais patrocinem a distribuição das tais bebidas. Alguém aí já viu um garçom recusar bebida a um adolescente em uma dessas festas de debutantes?
Depois de uma tragédia como a da Lagoa, que machuca a todos, é fundamental respeitar a dor de quem perdeu seus filhos assim como é necessário tentar evitar outros acidentes como aquele. Falamos todos na importância de dar limites aos jovens, esses adoráveis rebeldes. Mas quem é que vai dar limites aos pais, a cada um de nós? Quem vai limitar o sujeito que pára o carro na calçada, que, no Rebouças, pisa no freio metros antes do radar, que sabe de cor todos os pontos em que há pardais na Linha Vermelha? Quem vai dizer para um pai de família que ele não deve ir de carro para o bar ou para o restaurante locais onde possivelmente irá encher a cara? Quem é que vai dar voz de prisão para o dono da boate que permite a entrada de menores e que a eles vende bebida alcóolica?
Alguns outros países já responderam a essas perguntas. O Estado cumpre as desagradáveis tarefas listadas aí em cima. É ele que adverte, multa, pune e prende. E não faz isso porque é chato, mau, desagradável, estraga-prazeres. Faz isso em nome da sociedade que o criou e o sustenta. Uma sociedade consciente da necessidade de um ente que, que forma impessoal, a preserve e a proteja. Proteja-a, às vezes, de si própria. Muitas vezes precisamos de quem nos proteja de nossos excessos e evite que prejudiquemos outras pessoas. Nem sempre somos tão corretos, tão racionais. Nem sempre fazemos o que escrevemos.
Por alguma razão que o Roberto Da Matta poderá tentar explicar, desenvolvemos uma relação curiosa com o Estado que, a todo dia, sustentamos com nossos impostos. Algo como: adverta, puna e prenda – os outros. Não admitimos ser fiscalizados, alertados, multados. “Vá prender bandidos!”- que guarda de trânsito já não ouviu esta frase? Aquele que não a ouviu deve ter recebido uma pergunta. Algo como: “Não dá pra resolvermos isso de outra forma?” O engraçado é que tendemos a classificar de corrupto apenas o policial que se vende, não o motorista que o compra. Como em outras relações, há aqui a figura do ativo e do passivo, ambos cúmplices, elementos essenciais para a realização de um determinado ato. Um depende do outro.
Angustiados com o inimigo externo, nos esquecemos do quanto somos cúmplices e promotores de um outro tipo de violência. Uma violência que, em determinados universos, deve matar e ferir muito mais do que aquela outra, banalizada pelos tiros de armas alheias. Ao longo de alguns séculos construímos uma sociedade violenta, excludente, e só sabemos culpar os feios, sujos e malvados, como no filme de Ettore Scola. Nos acostumamos tanto a desrespeitar o outro que acabamos criando condições ideais para o auto-extermínio. Ninguém - nem o Estado, nem a família - pode nos limitar, nos multar, nos punir. Fomos tão radicais na busca dessa impunidade que hoje não sabemos mais sequer proteger nossos filhos. Conquistamos o direito de nos matarmos e de dormirmos assustados com o ruído de cada freada que invade nossas noites.

3 de setembro de 2006

A grande cena

É uma daquelas cenas que valem o ingresso. Aquele raro momento em que o implícito vale mais que o explícito, que o escancarado. Lembra uma outra, igualmente delicada, de "Eles não usam black-tie" - em um determinado momento da crise gerada pelo movimento grevista, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam feijões na cozinha. Não há discurso, não há - ou quase não há - diálogos. Há apenas perplexidade, dúvida, angústia. Há, enfim, cinema, muito cinema. O melhor cinema daquele filme de Leon Hirzman. A cena de agora é de "Zuzu Angel", de Sérgio Rezende. Um bom e mesmo emocionante thriller, prejudicado, aqui e ali, por cenas em que há pouco cinema e um excesso de verborragia. Mas, enfim, a cena: logo depois do assassinato de seu filho, Zuzu Angel, incorporada por Patrícia Pillar, sobe uma ladeira em busca do pai de Carlos Lamarca, o líder guerrilheiro cujo endereço Stuart Angel se negara a revelar sob tortura. Recusa que lhe valera uma dose-extra de torturas e que lhe causaria a morte. Zuzu entra numa sapataria e encontra um velho - Nélson Dantas, brilhante - a trabalhar. Zuzu fala e fala: fala que seu filho morrera para proteger o filho daquele homem ali. Em nenhum momento cita o nome de Lamarca, o oficial do Exército que desertara para aderir à luta armada. O velho parece impassível, ouve o discurso daquela mulher enquanto continua a trabalhar. Trabalho que envolve alojar alguns pregos entre os lábios - uma técnica dos sapateiros para facilitar o seu ofício. Mãos e boca ocupadas, o velho ouve a cantilena daquela mulher. Parece não ouvir o que ela diz; melhor, parece ouvir mas não entender bem o que ela fala, parece ter uma certa postura olímpica, distante. Algo como quem é essa louca que vem me falar em filho quando eu também, de certa forma, perdi o meu, eu que nem sei onde ele está, ele que é um dos homens mais caçados do país? Dantas olha para a mulher, para o pé de sapato que conserta; martela o sapato, coloca e tira pregos nos lábios. Até que algo rouba a atenção daquela mulher. Ela que, até então, limitava-se a despejar seu rancor sobre o velho, percebe enfim o quanto de dor - calada, sufocada - havia naquele homem mudo. De seus lábios saía um filete de sangue, sangue que brotava de uma ferida causada pela pressão exercida pelos lábios sobre aqueles pregos. Cada palavra de Zuzu fora como uma martelada na alma, na boca do pai de Lamarca; pancadas cuja força enfim se revelava naquele filete de sangue. Uma dor que revela uma outra forma de tortura, uma dor cruel, sem sentido, que desnuda a impotência de quem a causa e de quem a sente. Uma dor bumerangue, pregos que agora atingem quem, até há pouco, despejava tantas e tantas dores. Uma dor não-óbvia, difícil de detectar e, principalmente, mostrar. Uma dor que só um grande filme - ou um grande livro, ou um grande quadro - pode revelar. "Zuzu Angel" não chega a ser um grande filme, mas abriga uma grande cena, digna do melhor cinema, de dois grandes atores, de sensíveis roteiristas e diretor. A cena que nos faz cúmplices daquelas tantas dores, dores que passam a doer também em todos nós.