22 de janeiro de 2008

Sassaricando 2050

O post sobre o inglório destino dos sambas derrotados rendeu aqui no blog uma discussão interessante, com apenas uma ou outra canelada. A Eugenia, uma das editoras da Agenda do Samba e Choro - http://www.samba-choro.com.br/ - , chegou a propor o lançamento de um CD com sambas não escolhidos pelos jurados. Eu não pedi tanto, apenas reivindiquei o direito de, vez por outra, cantar um ou outro samba escanteado. Mas sei que é uma luta meio inglória: sambas vencedores já não duram muito, imagine o ocorre com os defenestrados...

Sambas de bloco são, de um modo geral, muito ligados ao contexto em que foram compostos e não têm qualquer pretensão à imortalidade. Mas talvez por isso mesmo mereçam ser guardados. Sua irresponsabilidade e descompromisso se traduzem em leveza e num certo ar de testemunho de época. Na prática, ocupam hoje o lugar das marchinhas - quem viu "Sassaricando" percebeu como elas, em décadas passadas, cumpriam o papel da sátira, da brincadeira, da crônica. Mais do que um ótimo espetáculo sobre marchinhas, "Sassaricando" é sobre o Rio, de como cariocas aproveitavam o carnaval para falar, de maneira bem-humorada, da cidade e do país.

Esse papel hoje é cumprido pelos blocos e seus sambas, que escrevem nas ruas um quase roteiro de nossas alegrias e sacanagens. Mesmo uma eventual agressividade de uma ou outra letra não deixa de ser um certo reflexo de tempos como o nosso, em que a sutileza tende a perder embates de goleada.

Pelo que sei - e não sei muito -, apenas o Simpatia lançou, há alguns anos, um CD com seus sambas. Acho que alguma instituição - o Arquivo Geral da Cidade ou o MIS - poderia lançar um projeto para recolher, catalogar e mesmo gravar os sambas (tá bom, só os vencedores) que os cariocas têm cantado pelas ruas antes e durante o carnaval. Todos seriam disponibilizados na internet. Não deve sair caro, não precisa de muita burocracia nem de pagamento de direitos autorais. Acho que a Sebastiana - entidade que reúne os blocos da zona sul - toparia ingressar nessa tarefa. "Sassaricando" existe porque as marchinhas foram registradas e gravadas, o que permitiu o trabalho de pesquisa da Rosa Maria Araújo e do Sérgio Cabral. Acho que não custa nada tentar garantir hoje o "Sassaricando" de 2050.

21 de janeiro de 2008

Trabalhadores do samba

Nesta terça, Moacyr Luz leva seu Samba do Trabalhador para o Canecão. Programaço: quem já esteve no Renascença ou no Samba Luzia sabe.

20 de janeiro de 2008

Jornada no Engenhão

Zé Carlos comemora seu gol, o primeiro do jogo de sábado passado. O Botafogo venceu por 2 a 0.

Se algum dia virar editor de Esportes vou baixar uma norma na redação: pelo menos um repórter escalado para cobrir um jogo vai entrar no estádio como torcedor. Ou seja: terá que comprar ingresso (pago pelo jornal, claro), encarar fila, roleta, ameaça de briga de torcida; e será obrigado a ver o jogo da arquibancada. Explico: as naturais facilidades oferecidas aos jornalistas credenciados acabam fazendo com ele não olhe para os bastidores do espetáculo. E é aí que o bicho pega.

Neste sábado fui com meus filhos ao Engenhão ver o Botafogo ganhar do Resende. De cara, uma boa surpresa, que não vi publicada no jornal (tive que, vergonha!, ligar para um assessor de imprensa do time para conferir): o estacionamento do estádio poderia ser utilizado mediante o pagamento de R$ 10,00. Vale a pena. O lugar é amplo, seguro, a administração foi terceirizada: mas faltou dar uma varrida ali. A quantidade de poeira no chão é assustadora, havia uma nuvem de pó flutando no ar: o carro ficou todo sujo. Coitados dos caras que ficaram horas ali, trabalhando, devem estar tossindo até agora.

A entrada no estádio foi tranqüila (chegamos mais de uma hora antes do jogo), mas... A diretoria do Fogão decidiu separar o estádio por setores, cobrando preços diferenciados. Boa idéia. O problema é que falou divulgar um detalhe: ao contrário do que ocorre nas arquibancadas do Maracanã, o torcedor teria, obrigatoriamente, que entrar no estádio pelo portão correspondente ao seu setor. Lá dentro, descobrimos depois, não havia como trocar de lado. Pior: as roletas aceitavam bilhetes independentemente do setor - assim, quem comprou ingresso para, digamos, o setor sul (mais barato), poderia passar seu ingresso pela roleta do oeste (mais caro). E vice-versa. É claro que deu confusão. Dentro do estádio, muitos tentavam trocar de setor e esbarravam nos seguranças que, coitados, não tinham autoridade para resolver o problema. Mas isso, tenho certeza, será resolvido pela diretoria do Botafogo - o Bebeto de Freitas é, de longe, o melhor dirigente do futebol carioca e seus planos para o Engenhão são muito bons (ele promete anunciar novidades nesta segunda).

Ah, uma questão mais grave: foram colocadas placas de publicidade numa lateral e atrás dos gols. OK, é preciso faturar. O problema é que as tais placas impedem a visão da bola de quem estiver sentado nas primeiras filas das arquibancadas. Por "primeiras filas" entenda-se, no barato, as dez primeiras - estava lá de torcedor, não parei para contar, apurar matéria. Mas sei que tive que ir subindo, subindo, subindo até conseguir uma cadeira que me permitisse ver todo o jogo. Quem estava abaixo de mim não viu o drible espetacular que o Jorge Henrique deu no zagueiro do Resende e que resultou no segundo gol do Botafogo. É preciso encontrar uma solução melhor, talvez colocar as placas num local mais longe do campo - por que não naquela faixa até hoje ocupada pelos já anacrônicos símbolos do PAN? O torcedor que pagou o ingresso tem direito de ver o jogo todo.

Bem, no mais, o Castillo tem jeito de ser um goleiro sério e o Ferrero jogou por dois: por ele e pelo Renato Silva, o zagueiro que fumou a maconha mais potente do mundo. Até hoje parece jogar sob o efeito da dita cuja. O Triguinho esteve bem. O Zé Carlos e o Wellington Paulista fizeram gols na estréia oficial, e isso é muito bom.

17 de janeiro de 2008

Binhos

Outro dia citei aqui uma matéria da "Piauí" que trazia nomes de supostos vinhos portugueses. Achei a dita cuja no site da revista. É, na verdade, um cartum do Reinaldo. Muito bom, por sinal. Vejam só se os vinhos a seguir não fariam, numa adega, boa companhia ao "Monte dos Cabaços".

Cova da Buça, Quinta das Culhoneiras, Nnhenhenha de Trás-os-Fanhos, Adega do Borzeguim Fanchão, Herdade Lariquinha de Chincheiral e Peúgas de Aldrabão.

16 de janeiro de 2008

Os sambas que não devem morrer

Na foto, que peguei no blog do Moutinho, o momento em que defendíamos nosso samba, lá no palco do Odisséia

Há mais de dez carnavais que, volta e meia, acabo participando da disputa de sambas de blocos cariocas - em especial, do Imprensa que eu Gamo, fundado e tocado por jornalistas. Já paguei incontáveis micos, coleciono algumas derrotas e duas memoráveis vitórias - ambas, no Imprensa. Na madrugada desta terça, eu e meus parceiros Marcelo Moutinho e Gabriel Cavalcante, o Gabriel da Muda, perdemos a disputa no Imprensa, ficamos em segundo lugar, um placar apertado, três votos pra lá, dois pra cá.

Perder nunca é bom, ainda mais quando achamos que nosso, vá lá, produto, é o melhor, como foi o caso. Um dos autores do samba vencedor escreveu em seu blog que queria, com ele, "chocar a sociedade" - nós, mais modestos, desejávamos apenas ajudar a divertir uma pequena parte dela, aqueles malucos que saem pulando duas semanas antes do Carnaval pelas ruas de Laranjeiras.

Perdemos, perdemos, é do jogo, nada a reclamar. Mas as derrotas em disputas de samba trazem uma questão adicional. Por uma espécie de convenção, uma lógica de respeito ao vencedor, samba derrotado é inapelavelmente condenado a morrer. É uma espécie de aborto ou de morte pós-parto. Pelo que lembro, há apenas uma grande exceção à regra, o "Estrela de Madureira", de Acyr Cardoso e Pimentel, que, derrotado na disputa pelo samba do Império Serrano de 1975, continua a ser tocado em praticamente todas as rodas da cidade. O vencedor ("Baleiro-bala/Grita o menino assim"), quase não é lembrado.

Um livro pode vender pouco, um filme pode ser ignorado pela crítica e pelo público - mas ambos, de alguma forma, cumprem seu percurso. São lançados, exibidos e lido/vistos por um determinado número de pessoas. Nascem, vivem - e ficam ali, devidamente catalogados ou arquivados, preservados em algum modesto cantinho da história e, quiçá, da eternidade. Já o samba abortado, não. Por melhor que eventualmente seja, sobrevive, se tanto, por alguns anos na cabeça de seus autores. Não que haja assim tantas obras-primas entre esse tipo de samba - normalmente são muito ligados à realidade imediata, o que reduz um pouco alguma possibilidade de vida eterna, amém. Mas, caramba, foram todos compostos com dedicação, carinho e algum talento. Esse destino do samba que, se não ganhar, vai se perder, contribuiu para a minha não cumprida promessa de parar de me meter nessa doideira.

E é em protesto contra esta morte prematura, e sem qualquer disposição de levantar polêmica com a decisão da direção do bloco, que jogo aqui arquivos com letra e música do samba que eu, Moutinho e Gabriel compusemos para o Imprensa em 2008. O arquivo sonoro é precário, registrado logo depois que demos a nota final ao samba. Mas vale para a história. Espero que vocês se divirtam.

Obs: não consegui colocar o áudio aqui no blog. Vou tentar mais tarde. Por enquanto, vai a letra.

O CIRCO DA TROPA
Gabriel Cavalcante / Fernando Molica / Marcelo Moutinho

O mosquito picou o presidente
E o nosso Lula amarelou
Tomou bronca do Hugo Chavez
Foi-se o gás do Evo Morales
E no Senado, o tempo fechou

O “seu” Renan
Esqueceu da camisinha
Imprensou de qualquer jeito
E gamou na coleguinha

Relaxa e goza, meu amor
Por que não se cala e me beija?
Sem avião pra viajar BIS
No Imprensa eu vou embarcar

Zé Dirceu tá de telhado novo
Eu já tô careca de saber:
Pra virar circo, só falta a lona
Brasília ou Rio, é a mesma zona

Ô César Maia... pede pra sair!
Quebra esse galho, meu São Sebastião BIS
Quero um prefeito que não seja fanfarrão!

14 de janeiro de 2008

Cabaços aos montes

Há alguns meses, a "Piauí" publicou um artigo de humor com supostos - e engraçadíssimos - nomes de vinhos portugueses. Uma pândega. Mas, acreditem, o vinho de que trato neste post existe, é até bem cotado no mercado. E, incrível!, é facilmente encontrável nas boas casas do ramo. Há quem o considerasse quase extinto, mas no entanto, cá está ele, pronto para ser consumido, sem culpa e sem esforço. O mais que tradicional "Monte dos Cabaços":



E não é só: o tal vinho é produzido por uma orgulhosa e - apesar de quem possa sugerir o contrário - bonita proprietária de uma tradicional quinta alentejana. A senhora Margarida Cabaço. Uma raridade, pois (ainda mais pela idade, já deve ter passado dos 40, mole). E o blog, que não pode deixar de ter algum compromisso jornalístico, apresenta a todos a foto de Dona Cabaço - ou seja, a partir de agora, ninguém poderá dizer que não liga o nome à pessoa. O senhor ao lado dela na foto deve ser o insistente e paciente maridão (paciência, sabemos todos, é algo importante na produção de vinhos). Como podem notar, o casal não tem filhos - pelo menos, eles não estão na foto.



Ah, importante, os Cabaços podem ser visitados. Confiram em http://dn.sapo.pt/2004/12/21/boa_vida/um_monte_alentejano_para_descobrir_p.html. Neste link vocês poderão encontrar detalhes para hospedagem na propriedade, aberta (quem diria...) ao turismo. Deve ser divertido, por alguns poucos dias, pelo menos. Depois deve ficar meio chato - os Cabaços não devem ser anfitriões muito, digamos, animados. Consta que são meio fechados, resistentes às investidas de estranhos, não gostam daquele entra-e-sai.

11 de janeiro de 2008

O furo do Tartaglia (com todo o respeito)

Num post abaixo eu disse que corria para ser o primeiro a destacar como o Gabriel da Muda canta bem. Descobri tardiamente que fui furado pelo grande Cesar Tartaglia (confiram em http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/frontdorio/post.asp?t=habemus_cantor&cod_Post=83479&a=5 . Nenhum problema, muito pelo contrário. Mesmo no mundo virtual é preciso respeitar o vale o escrito.

9 de janeiro de 2008

Overdose de notícias

De tédio é que jornalista não morre aqui no Rio. Na semana passada eu estava na entrada da ilha do Fundão entrevistando uma baleada no réveillon de Copacabana quando um sujeito passou por mim e avisou que uns duzentos metros ali na frente, na entrada do campus da UFRJ, um homem havia sido atropelado - e o socorro estava demorando a chegar. Terminada a entrevista, passamos por lá, a ambulância estava recolhendo a vítima, ainda deu pra fazer algumas imagens. Logo depois seguimos para a praia de Copacabana, para completar a matéria sobre os tiros que mancharam a virada do ano na cidade. Por volta das 21h, estávamos na areia, ao lado do palco dos shows, quando passou um casal vindo da direção do mar: a mulher chorava, queria encontrar um PM; eles, turistas vindos de Juiz de Fora, tinham acabado de ser assaltados. Saí da redação para fazer uma reportagem, esbarrei em outras duas.
Ontem fui fazer matéria sobre uma bala que, perdida, achou por bem cair num apartamento no Alto Leblon. Enquanto estava lá, soube de outra notícia: uma segunda bala sem direção tinha quebrado a janela de um apartamento em Copacabana. A reportagem ganhou importância, seria sobre duas balas perdidas na zona sul do Rio. Corremos pra lá. No caminho, já em Copa, tropeçamos em outro fato. Paramos o carro para perguntar a um guarda municipal a localização da rua em que ficava o prédio atingido pelo tiro. Mas antes mesmo de fazermos qualquer pergunta, o guarda olhou o carro de reportagem e foi avisando: "É na Ronald de Carvalho!" Como assim? Nosso destino era outro: "O senhor sabe onde fica a rua tal?" Ele sabia. Em seguida, perguntamos o que tinha acontecido na Ronald de Carvalho. "Tá cheio de polícia lá, invadiram um frigorífico que tem carne roubada, uma confusão danada. É bom vocês irem até lá", aconselhou. A história não era bem essa, mas havia mesmo outra notícia esperando para ser reportada.

Pra não dizer que só falei do Rio: na semana passada li, na coluna do José Sarney, na Folha, uma informação que não li, vi ou ouvi em nenhum outro lugar: segundo o ex-presidente, 34 pessoas foram mortas na passagem do ano em Salvador. Por que isso não foi noticiado nacionalmente, hein? Será que o repórter Sarney errou?

8 de janeiro de 2008

Brasil, cansamos?

Será que nos cansamos do Brasil? Dia desses, conversando com o Antônio Torres sobre as, de um modo geral, baixas vendagens de livros brasileiros de ficção, ele, meio irritado com ôba-ôba em torno de Cabul, disse algo bem interessante: o Brasil estaria deixando de ocupar o imaginário dos brasileiros. Ou seja, estaríamos pouco dispostos a sonhar com o que nos cerca. Seríamos assim capazes de nos transportamos para a Turquia, para a Índia, para o Afeganistão, para outros territórios remotos que escondem segredos guardados por gente de nome esquisito. Mas estaríamos meio refratários à idéia de compartilhar dramas, sonhos e desejos com Josés, Marias, e, numa concessão aos novos tempos, Dayannes e Jeffersons. É um fenômeno curioso, já que livros sobre aspectos da história do país se revezam nas listas de mais vendidos.

Nos últimos 50 anos, o Brasil passou por vários momentos de “agora vai”: governos JK e Jango, o tal do milagre brasileiro forjado na ditadura, a luta contra a própria ditadura, a expectativa pelos dias melhores que viriam com a redemocratização, as eleições para governadores, as diretas já, a constituinte, a eleição do presidente, os governos FHC e Lula. Alguma coisa disso teria que ter dado certo, né? Mesmo durante a ditadura havia a perspectiva de uma grande melhora do país, sonhávamos com isso, acreditávamos nisso. E talvez isso nos fizesse mais interessados no Brasil, nos seus destinos, nos seus escritores, nos universos que eles criavam. Livros de autores como Rubem Fonseca, Ignácio de Loyola Brandão, Márcio Souza, Antonio Callado e Antônio Torres eram de leitura quase obrigatória - lançado em 1976, o “Essa terra”, do Torres, vendeu muito logo de cara, está na 15ª edição! Será que chegaria a tanto se fosse publicado hoje?

De certa forma, dava gosto sonhar com o Brasil. Hoje, sei não. O país melhorou, claro, mas muito menos do que imaginávamos. Quase no fim na da primeira década do século 21 ainda discutimos questões básicas, como ensino público de qualidade. Ficamos meio naquela história medíocre da “utopia possível” sintetizada pelo FHC – que, tempos depois, diria que “o Brasil é isso mesmo”. Isso justifica até mesmo a transformação do PT num grande PMDB. O que que isso tem a ver com literatura? Pode ter a ver. Cansado de esperar o tal dia que nunca chega, o leitor pode ter decidido sonhar com mundos mais interessantes e fascinantes, e tome Cabul. E aí é que nos ferramos, autores ou não. As pessoas, mais do que pouco interessadas na literatura brasileira, estariam desinteressadas do Brasil, não necessariamente do país real, palpável, mas daquele que as poderia encantar.

Em tempo: segundo a Ilustrada deste domingo, “O caçador de pipas”, lançado no Brasil em 2005, já vendeu 1,6 milhão de exemplares por aqui. “Cidade do sol”, outro livro do Khaled Hossein, já está nas estantes de 550 mil brasileiros.

6 de janeiro de 2008

Gabriel, o cantador



Pra não desperdiçar a chance de, daqui a uns poucos anos, poder dizer que fui o primeiro a escrever sobre isso. O cara da foto aí de cima é exagerado em tudo: na pouca idade (inacreditáveis 21 anos), na sede (bebe direitinho, o rapaz), no peso (três dígitos, fácil), no mau gosto (fez tatuar numa das pernas o escudo daquele time da Gávea, um negócio horroroso), no ótimo gosto (conhece todos os sambas compostos em todos os tempos). E, principalmente, toca muito bem cavaquinho e é um excelente cantor. Vozeirão de gente grande; é afinado, capaz de se sobressair no meio da mais confusa roda de samba. O nome dele é Gabriel Cavalcante, o Gabriel da Muda, presença quase obrigatória nos melhores sambas da cidade. Está sempre ao lado do Moacyr Luz em pelo menos duas ótimas rodas cariocas: o "Samba, Luzia!", às sextas à noite, ali perto do Santos Dumont, e, às segundas à tarde, no "Samba do Trabalhador", no Renascença. Também bate ponto quinzenalmente na rua do Ouvidor, na roda promovida pela livraria Folha Seca e pelo restaurante Antigamente. Ele já registrou sua voz no CD "Samba do Trabalhador", mas já tá na hora dele gravar um disco solo. Ah, ele e o meu colega Eduardo Carvalho têm um o blog, o Samba, boemia e vagabundos!, em http://sbvagabundos.blogspot.com/ .

3 de janeiro de 2008

Rodrigues & Bolaño


Sérgio Rodrigues, outro colega em dobro - jornalista e escritor -, teve seu ótimo conto "O homem que matou o escritor" incluído na revista eletrônica de literatura internacional "Words without borders": http://www.wordswithoutborders.org/index.php . Entre outros autores selecionados está Roberto Bolaño, o que revela o nível de exigência da revista. Vale passear por lá, mas o melhor é ler o livro inteiro, em português, lançado em 2000 pela Objetiva.

2 de janeiro de 2008

Dicró


Trabalhar no dia 31 de dezembro não é exatamente um prazer. Fazer matéria, debaixo de sol - e que sol! - no Piscinão de Ramos, não chega a ser algo que peçamos a Papai Noel. Mas é do jogo. E acredite: pode ser divertido. Isso quando se tem o prazer de entrevistar o Dicró, grande sambista, expoente do que há alguns anos se chamava de sambandido. O cara é muito engraçado. Capaz de, em menos de cinco minutos, despejar algumas pérolas para o repórter encharcado de suor. Ele discorria sobre as maravilhas do réveillon à beira-piscinão - e elencou as vantagens da festa em relação àquelas que ocorreriam do lado de lá do túnel:


1. "No piscinão não entra mulher com celulite."

2. "O melhor da festa vai ser a minha sogra fazendo striptease."

3. "Vou cantar até de manhã... se a polícia não chegar. Mas, tá tudo certo, tá tudo no arreglo, não vai ter problema não."

4. "Vou cantar em vários idiomas, em inglês, francês, alemão. Aqui vem muito turista, até porque é mais perto do aeroporto internacional."


Depois de soltar as frases, ele cantou um trecho de um de seus sucessos, a "Melô da galinha", de Pedrinho da Flor.

Você sai de casa igual a uma bonequinha
Toda alinhada, maquiada, cheirosinha...
Mas lá na esquina o povo sempre diz que você é galinha
Você não tem bico, não tem pena, não tem asa
Não entendo nada por isso fico na minha
Só sei que na esquina o povo diz que você é galinha


Não é lá muito politicamente correto. Mas é engraçado pacas. O clipe da música está em http://www.youtube.com/watch?v=r06WDju36hU .

Liberdade para a menina C.!


Para não cometer nenhuma infração ao Estatuto da Criança e do Adolescente, vou omitir o nome da menina que inspira esta crônica. Menina que se impõe - aos berros - ao texto. Explico: a C. é minha vizinha, mora num prédio ao lado do meu, deve ter uns 5/6 anos de idade. E, desde que era um bebê, chora e grita muito. Por problemas acústicos, tudo o que é sussurrado em seu apartamento é ouvido aqui em casa. Imagine o que acontece quando se grita por lá. E olha que se grita muito. Tanto que me vi obrigado a comprar um aparelho de ar-condicionado para o meu escritório. Sem ele, sem fechar as janelas, jamais conseguiria ter escrito o "O homem que morreu três vezes" - o relato das aventuras do meu curioso personagem naufragaria diante dos gritos da C. e, principalmente, dos berros de sua mãe.
A mãe, o X da questão. A mãe da menina grita o tempo todo com ela - desde que a C. era bebê. E tome de "C. não faz isso!", "C. sai daí!", "Pára com isso C.!", "C. você me enlouquece!", "Já pro castigo, C.!". Já pensei em sair grudando nos postes e nos muros da rua cartazes pedindo liberdade para C. A mãe dela deve ser veterana do Desipe, ex-carcereira, sei lá. A mulher enche o saco da filha, o tempo todo. Nunca a ouvi propor algo como uma ida ao parquinho, à praia, ao cinema. Nada de chamá-la para tomar um sorvete, um suco ali na esquina. A mulher só reclama. E a filha, claro, aprendeu a conviver com os gritos e - céus! - a reproduzi-los. A C. também só fala aos berros, e que voz potente tem a menina! Uma berra daqui, a outra responde dali. E tome birra, choros, esganiços. A compra, no Natal, de uma piscininha de plástico, acabou com o que restava de calma por aqui. Dava pra acompanhar, pelos diálogos, toda a movimentação na casa, as evoluções aquáticas da criança: o apartamento delas tem uma área externa, local de confraternização familiar e de sonoros e eventuais churrascos.
Bem, espero que em 2008 a mãe de C. encontre aquela paz tão citada nos votos de felicidades para os anos vindouros, que tenha um pouco mais de tranqüilidade nas suas relações com o mundo e, principalmente, com a filha. Que aprenda que não é necessário berrar o tempo inteiro. Talvez, neste silêncio, consiga descobrir virtudes na filha, tenha mais prazer na convivência com ela. E, quem sabe?, possa sacar como é bom poder desfrutar da companhia de um filho. Torço para ouvi-la convidar a filha para algo que não seja uma ida ao castigo. Vai ser bom para ela, para a C., para seus vizinhos.

30 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (4) O ano da bossa

O texto que está abaixo foi publicado no dia 19/12/90, na Folha. Era uma crônica sobre o show ocorrido dois dias antes, no Scala 2, no Rio, em homenagem ao cantor Lúcio Alves - na época, muito doente. A arrecadação do espetáculo seria para pagar seu tratamento. O show foi espetacular, apesar da previsível ausência de João Gilberto. Republico o texto para fechar 2007 e abrir 2008, quando serão comemorados os 50 anos da bossa-nova.
Mas o mesmo mesmo é clicar no link http://www.youtube.com/watch?v=DmV0TcTNJ3o , ele leva ao Youtube, a uma interpretação espetacular de "Garota de Ipanema" feita por Tom & João.
Feliz Ano-Novo, que ele seja compatível com o espírito da bossa-nova. Sem saudosismo, claro, mas com esperança de tempos mais delicados. Um ano cheio de bossa.


Músicos fazem show saudosista no espírito bossa-nova

Fernando Molica
Da sucursal do Rio

Bem que Agnaldo Timóteo, com a sutileza de um porta-aviões nuclear, tentou arrebentar o delicado cais destinado aos barquinhos da bossa-nova. O diretor musical do show, o pianista Alberto Chimelli, também ameaçou acinzentar com uma tempestade “fusion” o céu azul das canções regidas pela trindade sol-sal-sul. Mas Tom Jobom, Os cariocas, Tito Madi, Sebastião Tapajós, Doris Monteiro, Miltinho, Caetano e Leny Andrade souberam tomar o leme e fazer o show em benefício de Lúcio Alves navegar em águas compatíveis com o estilo do homenageado.
Claro, o saudosismo foi inevitável, Tito Madi chegou a cantar uma música que fala de um Rio “que saiu dançando amor”; Caetano Veloso pescou “Fim de semana em Paquetá” – exemplos de uma cidade cuja sutileza foi fundamental para gerar um movimento como a bossa-nova. O Rio hoje está mais para a voz peso-pesado de Agnaldo Timóteo e a decadência expressa nos espelhos e dourados do cenário do show, o Scala 2, no Leblon, zona sul do Rio.
A beleza das canções e a qualidade de seus intérpretes permitiram que o show não se restringisse a um exercício de arqueologia musical. Os acordes de Tom Jobim, a afinação de Tito Madi, a técnica de Tapajós, os audaciosos arranjos de Os Cariocas e os improvisos de Leny Andrade demonstraram, mais uma vez, que a bossa-nova driblou os riscos da velhice e se colocou na posição dos clássicos. Prova de sua vitalidade é que continua a influenciar muita gente no Brasil e o exterior – a atual fase acústica de Caetano, um dos mais ousados artistas contemporâneos, não deixa de ser resultado de uma visita a essa fonte bossa-novista. E é esta condição clássica que vai permitir que a bossa-nova exista mesmo depois deste discreto modismo nostálgico gerado pelo livro “Chega de saudade”, de Ruy Castro.
No show, a bossa-nova foi mais um referencial. Alguns dos artistas que se apresentaram começaram antes de João Gilberto, no final dos anos 50, revolucionar a música brasileira. Quase todos, porém, entraram no clima da bossa-nova. Até mesmo as piadas do apresentador Ivon Cury ajudaram a criar este ambiente meio maroto e elegante, cool, como se dizia há alguns poucos anos.
O, digamos, impacto da presença de Agnaldo Timóteo cantando “Por causa de você” foi neutralizado, em seguida, por Tom Jobim. Depois vieram Caetano, e Os Cariocas. Esses conseguiram injetar cheiro de mar até na paulistíssima “Sampa”. Ah, teve também Cauby Peixoto, que entrou cantando “Conceição” e fechou sua parte com “People”. Nada disto é bossa-nova, mas, depois de Agnaldo Timóteo, até que pareceu muito natural.

28 de dezembro de 2007

"Seu" príncipe



D. Pedro Gastão, 94, o neto da princesa Isabel que morreu no dia 27 na Espanha, era uma figuraça. Nascido na França - a família real estava no exílio desde o golpe que proclamou a República -, ele morou muitos anos em Petrópolis num palácio, o Grão-Pará, anexo ao Museu Imperial. Adorava cavalgar pela cidade, onde era chamado de " 'seu' príncipe ". Estive com ele, creio, umas duas vezes, para entrevistas sobre a possibilidade do retorno da monarquia. Ele era engraçado, charmoso, irônico. Dizia que não gostava de revelar o nome do seu cavalo preferido - "Fardado". "Naum fica bem parra um prríncipe andarr porrr aí chicoteando um 'fardado'..." - justificava, com seu forte sotaque francês.

O sotaque e a idade fizeram com ele fosse afastado da campanha pela monarquia na época do plebiscito sobre forma e regime de governo, em 1993. Ele ficou chateado com sua exclusão - até porque, na época, andaram espalhando que a escravidão voltaria com a eventual vitória dos monarquistas. Para ele, nada melhor que um neto da princesa Isabel para garantir que o boato era completamente absurdo.

Grande contador de historias, só se referia ao rei Juan Carlos, da Espanha, como "meu sobrrrinho". Afinal, d. Pedro era casado com d. Esperanza de Bourbon, tia do rei. O saudoso e querido amigo Cláudio Lacerda contava uma ótima história do d. Pedro Gastão. Segundo ele, o príncipe soubera que uma professora de Petrópolis andava ressaltando em sala de aula o apetite sexual de seu trisavô, o imperador d. Pedro 1o. D. Pedro Gastão foi então à escola, conversou com a turma, com a professora, concordou que o antepassado era mesmo um grande conquistador. E concluiu:

- Só esperrro que a senhorrra naum tenha esquecido de dizer aos alunos que ele proclamou o independência de Brrasil...


Montanhas



Lagoa, 24/12/07.

O poente na espinha
Das tuas montanhas
Quase arromba a retina
De quem vê
("Carioca", Chico Buarque)
Foto do pôr-do-sol é um grande chavão (ainda mais depois de um post elogiando Roberto Carlos...). Mas a beleza do cenário justifica.

27 de dezembro de 2007

O rei e eu

Dia 25 foi dia de Rei. Aos primeiros acordes de "Emoções", minha mulher reclamou: "É tudo igual!" "É claro que é, assim que é bom", retruquei. Em seguida, na hora do "Detalhes de uma vida/histórias que eu contei aqui", previ: "Agora o arranjo vai fazer a citação de 'Detalhes' ". Fez, claro. Ainda anuncei lá pela quarta música: "Vai entrar um break." Nos especiais de Roberto Carlos, até a hora do comercial é previsível.

Mas como é possível se elogiar tanto algo tão repetitivo? Boa pergunta. Tenho lá algumas pistas. Roberto Carlos foi a trilha sonora da minha infância, eu tinha quase todos os seus discos. Depois, nos afastamos: adolescente não poderia gostar das breguices reais. Alguns anos depois, ele piorou: música pra caminhoneiro, pra mulher pequena, pra mulher míope; uma outra, oportunista que só ela, pegava carona na onda verde-amarela da Nova República. Argh! Mas, no primeiro Rock in Rio (é, eu o cobri), tremi pacas ao fazer rápida entrevista com o rei, que tinha ido à Cidade do Rock assistir à desastrada apresentação do Erasmo Carlos.

É terrível dizer isso, mas, de uma certa forma, o drama e a morte de Maria Rita reconectaram RC a grande parte de seu público. Ele ressurgiu dos infernos cheio de feridas e dúvidas. Voltou menos carola, mais humano e, talvez por isso, mais real (real aí nos dois sentidos). Tão humano que cometeu a burrice de proibir o ótimo "Roberto Carlos em detalhes", biografia escrita pelo fã Paulo Cesar de Araújo. RC desconhece o quanto o livro é bom e importante, quanto o celebra. O relato de suas tragédias pessoais - o acidente que lhe custou uma perna, a cegueira do filho, as mortes da ex-mulher e de Maria Rita, a descoberta do TOC - o torna mais próximo de seus, vá lá, súditos. Arrisco dizer: são dramas que, acompanhados que foram pela população, deram aquele tom de tragédia sempre presente nas grandes sagas de famílias reais. Lembro que a história da perna sempre foi um segredo ridículo: até em Piedade todo mundo sabia, mas ninguém falava nisso em público. Os problemas de saúde do filho e de Maria Rita foram acompanhados como novela - o próprio RC nunca os escondeu. É meio complicado quando ele, agora, vem pedir respeito à sua privacidade.

Aos trancos e barrancos, RC construiu uma história de identificação com boa parte do público brasileiro. De certa forma, ele nos joga na cara que somos sim meio bregas, que - de vez em quando - gostamos de arranjos gradiloqüentes, de versos meio óbvios, de um bolerão. Como diz Antônio Torres, sertanejo e especialista em Brasil: samba é música de centro urbano, o país como um todo gosta mesmo é de bolero. Tentando resumir: talvez RC nos diga, a cada fim-de-ano, que não somos tão bons como gostaríamos de ser, que não conseguimos superar nosso carinho por aquelas canções. É possível que esse amor seja também, mas não apenas isso, uma prova de um fracasso, de uma rendição à mesmice. Mais: um indício de que o país não mudou tanto assim nos últimos 40 anos. Deprimidos com a falência de nossos sonhos de redenção, de superação do atraso (econômico, social e mesmo estético), simbolicamente nos sentamos naquele bar vagabundo de beira de estrada e pedimos mais do mesmo. Pode ser, mas é também algo que nos recoloca em contato com nossas histórias, com nossas limitações. O RC ali, no fim de cada ano, dá uma idéia de permanência, o que não é pouco, num país que muda tanto. Mudamos e permanecemos - e não deixa de ser emocionante ver o rei, já meio velhinho, tendo que recorrer a monitores colocados no palco para não esquecer as letras das músicas. Reis também envelhecem.

Ah, ele não cantou "Detalhes". Imperdoável. "Até os erros do meu português ruim" é um verso comparável à narrativa do band-aid que Aldir Blanc colou no calcanhar da melodia de João Bosco.

25 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (3) - Escolas de samba

O texto abaixo foi publicado em 1994, no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo. Era uma tentativa de reflexão sobre as relações entre as escolas de samba, suas comunidades de origem e a presença, nos desfiles, de muitas e muitas pessoas externas a esse universo. Achei legal publicá-lo aqui depois que li, no blog do Aydano André Motta (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/chopedoaydano/) , um relato de cortar o coração sobre o ensaio do Império Serrano no sábado passado. No texto, o Aydano fala em "neófitos do samba", que migram de quadra "segundo a moda". Nada contra, claro - os ensaios são abertos, cada um tem o direito de escolher seu local de diversão. O que assusta é a possibilidade das escolas dependerem cada vez mais deste público de arribação. Enfim, nem sei se concordo com tudo que escrevi há quase 14 anos. Mas, em plena ressaca natalina, é melhor republicá-lo do que tentar uma nova reflexão. Feliz Natal! Ah, o título foi da redação da Folha, não concordo muito com ele...


20/02/94

Escolas cariocas viram cordão de turista

FERNANDO MOLICA
Da Sucusal do Rio

Talvez sem querer, Gilberto Gil forneceu régua e compasso para a discussão em torno da eventual presença excessiva nas escolas, em especial, na Mangueira, de pessoas de fora do mundo do samba. Ele foi ao ponto ao detectar o que chamou de "caráter devocional" do desfile e ao citar o aspecto ritualístico da manifestação.Este rito e esta devoção estão, como ele também citou, ligados à luta das comunidades onde as escolas foram geradas. Estas características é que definem os limites da expansão do desfile. As escolas podem fazer tudo, mas não podem perder a fonte que as alimenta e legitima. O fundamental é manter o desejo de uma comunidade em se fazer representar com dignidade.A Beija-Flor, a Mocidade e a Imperatriz - os melhores exemplos de escolas que desabrocharam a partir da atuação de bicheiros/patronos - já existiam muito antes de serem adotadas. Os bicheiros não criaram estas escolas de samba. Foram em busca delas para tentar absorver um pouco da legitimidade que expressavam.Alguns bicheiros, como "Capitão Guimarães", foram menos sutis e acabaram rejeitados. Guimarães entupiu a Vila Isabel de dinheiro, mas acabou perdendo o poder na escola, campeã em 88 já sem a incômoda presença do patrono. Assim como os bicheiros, as iniciativas que visam dar um suporte empresarial às escolas têm de saber respeitar seus limites. Não podem se arvorar em substituir os poderes acumulados ao longo de - no caso da Mangueira - quase 60 anos.Mesmo que as agremiações tenham crescido e transcendido os limites de suas comunidades originais, a presença majoritária no desfile de pessoas a elas ligadas é fundamental para manter este elo que garante a sobrevivência da agremiação. Os bicheiros mais esclarecidos sabem disto: tanto que, para garantir um bom padrão de desfile e manter sua popularidade passaram, cada vez mais, a investir na compra de fantasias para os componentes que não teriam como adquirí-las - os antigos integantes das escolas estavam engrossando apenas uma ala, a "da força", eufemismo que caracteriza os empurradores de carros alegóricos.Uma escola perde sua função se não for mais vista como representante daqueles que a construíram e sim como um play-ground de aluguel ao alcance de quem tenha dinheiro para comprar uma fantasia. Escolas que são, não sobrevivem com um número excessivo de alunos que comparece apenas na festa de formatura com um diploma comprado nas mãos exibindo o ar bobo de quem enche a boca para dizer que é Mangueira ou Portela, mas que sobe ao morro apenas na condição de sequestrado.O ritual do desfile se completa com a presença, entre o público, de pessoas que cresceram aprendendo a gostar daquele espetáculo e que não tem vergonha de ouvir samba fora do carnaval. Fruto do crescimento e institucionalização dos desfiles, o sambódromo não pode ser um gueto para cariocas, mas, ao contrário do que afirmou o presidente da Riotur, José Eduardo Guinle, não foi feito principalmente para os turistas. Gil falou em devoção e ritual. As religiões criaram, ao longo de milênios, cerimônias bélissimas que atraem e fascinam o mais renitente ateu. Estas religiões, porém, morreriam se transformadas em macumba para turista. Elas precisam de fiéis que não apenas vejam, mas que compartilhem seu ritual.

24 de dezembro de 2007

Páginas amarelas (2) - Tom & João

Esta reportagem, que abre no blog as homenagens aos 50 anos da bossa-nova, tem uma história curiosa. Em dezembro de 1992, a Brahma promoveu no Teatro Municipal do Rio um reencontro entre João Gilberto e Tom Jobim: havia muito tempo que eles não dividiam o mesmo palco. A participação de Tom no show de João seria o ponto alto do espetáculo e sequer chegou a ser divulgada. Poucos dias antes, a Folha de S.Paulo recebeu uma proposta interessante: dois de seus repórteres seriam colocados nos bastidores do show. Um seria o garçom do João Gilberto no Municipal; o outro assistiria, sem se identificar como jornalista, ao ensaio entre os dois grandes da bossa-nova. Fiquei com medo de derrubar café-com-leite no João, a condição de fã do baiano potencializaria minha já preocupante condição de desastrado. O Plínio Fraga assumiu o cargo de garçom e eu virei aspone de um sujeito que teria acesso ao ensaio, que ocorreria numa suíte do Caesar Park de Ipanema. No dia 09/12/92, a Folha publicou o texto abaixo:

Apresentação teve ´ensaio secreto´no domingo

Cantores se encontraram no Caesar Park do Rio


Chega de saudade: depois de muitos anos - seis ou 15, as versões são conflitantes - João Gilberto e Tom Jobim voltaram a se encontrar no domingo. Nada de abraços e carinhos sem ter fim: sorrisos, um aperto de mão, um arrastado "Oi, Tom". Na véspera, João e Tom haviam conversado por uma hora e meia por telefone.
O encontro foi às 18h30 na suíte do 12o. andar do hotel Caesar Park, em Ipanema, zona sul, onde João passou a semana que antecedeu ao show do Municipal. Acompanhado da mulher, Ana, Tom chegou às 18h20. João havia saído.
Ao chegar à suíte, Tom se decepciona ao ver o piano elétrico reservado para o ensaio. Calça branca, camisa larga branca e amarela, chapéu de palha, balança a cabeça ao tocar alguns acordes. "Não dá", diz. Entre uma nota e outra, desiste de acender o charuto. "O João vai ficar zangado", justifica.
Nisto, chega João. Cumprimenta Tom e Ana, lamenta a quebra da alça da caixa de seu violão e reclama do ar-condicionado. Preocupado com o show, João não dormia havia três dias - preocupação semelhante o fizera pedir, por três vezes, o adiamento da apresentação de anteontem, que estava prevista para agosto.
Ainda na suíte, João canta "Chega de Saudade", que viria a abrir o bis no show. Decepcionado com o piano, Tom sugere que o ensaio seja em sua casa, o que é aceito por João. À espera do elevador, um silêncio constrangedor. Tom quebra o gelo: elogia a participação de João no comercial da Brahma e critica a "world music". João concorda com um muxoxo.
No hall, Tom caminha na frente, João, de paletó cinza e tênis brancos, vai mais atrás, agarrado ao violão: passo tímido, quase caipira, pés um pouco virados para dentro. Atravessam o vidro da portaria do hotel e encaram, um ao lado do outro, a claridade de Ipanema. Vistos de costas, são personagens de uma não-realizada foto histórica: as duas silhuetas em contraluz emolduradas pelo mar de Ipanema.
O ensaio durou três horas. Anteontem, às 20h2o, eles voltaram a ensaiar no Municipal. Já havia uma certa cumplicidade. Tom cantava uma brincadeira com o nome do parceiro de palco: " Viva o João Gilberto/ Viva o João do Prado/Vivia o João Gilberto Pereira de Oliveira."
João estimulava Tom a improvisar mais em "Chega de Saudade": "Faça como quiser, Tom", dizia, sentado a seu lado, em uma ponta do banco do piano. Pode ter sido o reinício de uma bela e produtiva amizade.

23 de dezembro de 2007

A vila de Piedade



A vila é essa aí, ó. A foto é de hoje, 23 de dezembro. As casas cresceram, ganharam andares, perderam as fachadas originais. Não havia as grades e muros que delimitam as calçadas. Mas continua sendo um bom lugar. Ao fundo, o prédio onde morei.