O caso daquele juiz federal que disse ter sido agredido por policiais civis do Rio
(mais detalhes no Blog do Noblat - http://oglobo.globo.com/pais/noblat -, postagem das 12h24 de ontem, 13/2) - é ótimo para os que acham que qualquer policial tem o sagrado direito de bater em qualquer suspeito (eventualmente, tem também o direito de matá-lo). Essas pessoas, que adoram mandar cartas furibundas para O Globo, acham que a cor da própria pele e a posição social que ostentam serão barreiras à violência policial; têm certeza de que nunca serão atingidas. Tolinhas: defender o respeito aos direitos humanos de acusados de crimes ou mesmo de bandidos não é apenas uma manifestação de justiça e civilidade, é também uma ótima maneira de garantir os nossos direitos, os direitos de todos. Se o policial respeitar o suposto bandido também respeitará o suposto inocente.
14 de fevereiro de 2008
12 de fevereiro de 2008
A falsa fatalidade e o samba do Edmundo
Acabo de ler que o pai de uma das vítimas do acidente em São Paulo - aquele em que morreram cinco jovens - disse que o fato deveria servir de exemplo para os mais jovens. Mas, em seguida, classificou o episódio de "fatalidade". Com todo o respeito e carinho por ele, que sofre agora uma dor inimaginável: é um erro se falar em "fatalidade". Ao que tudo indica - e peço desculpas antecipadas caso eu esteja errado - houve sim uma irresponsabilidade coletiva. Não uma fatalidade, mas um resultado até previsível diante da provável combinação entre álcool e volante.
É curioso como a sociedade reage de forma diferente a tragédias que causam mortes violentas. Se as mortes são resultado de uma ação de bandidos, ressurge o coro do pega-mata-come: a pregação por penas mais duras, a negação dos mais elementares direitos humanos, a tolerância com a violência policial. Claro: essas mortes são produzidas pelos outros, por eles, pelos marginais; de um modo geral, feios, sujos e malvados. Já acidentes de trânsito são, de um modo geral, causados por gente como a gente, pessoas que se parecem conosco, com nossos amigos ou filhos. Nesses casos, a grita é mais branda. O crime aparece coberto pela capa da tal fatalidade. Não tenho apoio estatístico para isso (já até tentei usar os dados do DataSus, mas eles são incompletos, não permitem conclusões definitivas), mas sou capaz de apostar que os filhos da classe média morrem mais de acidentes de carro do que de balas disparadas por bandidos. No entanto, tendemos a ter mais medo da ação destes.
Volta e meia se acusa - com razão até - a justiça de ser lenta e tolerante com motoristas que causam acidentes. Mas, de certa forma, a sociedade também é igualmente tolerante. Na madrugada de domingo passado, o jogador Edmundo, depois de circular num camarote no sambódromo, desceu à pista e desfilou no meio de uma escola de samba. De onde eu estava, não ouvi vaias nem qualquer manifestação de protesto quanto à presença, ali, de um sujeito condenado pela morte de três jovens em um acidente de trânsito ocorrido em dezembro de 1995. Julgado em 1999, ele, até hoje, consegue, de recurso em recurso (são sete recursos desde a condenação, segundo matéria publicada em junho passado em O Globo), adiar o cumprimento da pena. Uma pena muito leve, por sinal: quatro anos e meio de prisão em regime semi-aberto.
Duvido que a reação do público do sambódromo seria a mesma caso o desfilante fosse outro. Por exemplo, um homicida comum, ou mesmo aqueles dois condenados pelo assassinato da Daniella Perez (e olha que ambos cumpriram pena). A sociedade é tolerante com os crimes de trânsito talvez até como um habeas corpus preventivo - como se pensasse no que seria capaz de fazer ao volante depois de algumas doses. Na dúvida, exerce com o outro a tolerância que deseja para si. O resultado disso é o silêncio cúmplice diante do desfile de um condenado que se recusa a cumprir a pena.
É curioso como a sociedade reage de forma diferente a tragédias que causam mortes violentas. Se as mortes são resultado de uma ação de bandidos, ressurge o coro do pega-mata-come: a pregação por penas mais duras, a negação dos mais elementares direitos humanos, a tolerância com a violência policial. Claro: essas mortes são produzidas pelos outros, por eles, pelos marginais; de um modo geral, feios, sujos e malvados. Já acidentes de trânsito são, de um modo geral, causados por gente como a gente, pessoas que se parecem conosco, com nossos amigos ou filhos. Nesses casos, a grita é mais branda. O crime aparece coberto pela capa da tal fatalidade. Não tenho apoio estatístico para isso (já até tentei usar os dados do DataSus, mas eles são incompletos, não permitem conclusões definitivas), mas sou capaz de apostar que os filhos da classe média morrem mais de acidentes de carro do que de balas disparadas por bandidos. No entanto, tendemos a ter mais medo da ação destes.
Volta e meia se acusa - com razão até - a justiça de ser lenta e tolerante com motoristas que causam acidentes. Mas, de certa forma, a sociedade também é igualmente tolerante. Na madrugada de domingo passado, o jogador Edmundo, depois de circular num camarote no sambódromo, desceu à pista e desfilou no meio de uma escola de samba. De onde eu estava, não ouvi vaias nem qualquer manifestação de protesto quanto à presença, ali, de um sujeito condenado pela morte de três jovens em um acidente de trânsito ocorrido em dezembro de 1995. Julgado em 1999, ele, até hoje, consegue, de recurso em recurso (são sete recursos desde a condenação, segundo matéria publicada em junho passado em O Globo), adiar o cumprimento da pena. Uma pena muito leve, por sinal: quatro anos e meio de prisão em regime semi-aberto.
Duvido que a reação do público do sambódromo seria a mesma caso o desfilante fosse outro. Por exemplo, um homicida comum, ou mesmo aqueles dois condenados pelo assassinato da Daniella Perez (e olha que ambos cumpriram pena). A sociedade é tolerante com os crimes de trânsito talvez até como um habeas corpus preventivo - como se pensasse no que seria capaz de fazer ao volante depois de algumas doses. Na dúvida, exerce com o outro a tolerância que deseja para si. O resultado disso é o silêncio cúmplice diante do desfile de um condenado que se recusa a cumprir a pena.
11 de fevereiro de 2008
Marias e Joãos da Leopoldina
Deve ser coisa do suburbano que nunca deixarei de ser. Mas, para fechar o ciclo carnavalesco - até porque 2008 já começou! -, cito aqui um trecho do samba da Imperatriz Leopoldinense. Escola que já foi a papa-tudo do carnaval carioca, especialista nos tais desfiles frios e técnicos, a Imperatriz fez este ano uma belíssima apresentação e trouxe o mais lindo samba da temporada.
Dizer que em Ramos, "a nossa estação", "imperam Marias e Joãos" é muito bonito e emocionante. Ainda mais quando lembramos que a região da Leopoldina, parte dela dominada por quadrilhas bem armadas, tornou-se foco principal da ação da polícia. Foi lá que, no ano passado, dezenas de Marias e Joãos inocentes foram mortos em nome do combate ao tráfico. E é lá que, de acordo com a previsão do secretário de Segurança Pública, deverão ocorrer outras mortes, digamos, civis. Em meio à barbárie, não custa celebrar de novo as Marias e os Joãos responsáveis pela criação de belezas como os desfiles das escolas de samba. Vida longa e feliz para todos eles.
E Leopoldina será nossa imperatriz
Será também nome de trem
Que passa em Ramos, a nossa estação
Onde imperam Marias e Joãos
Dizer que em Ramos, "a nossa estação", "imperam Marias e Joãos" é muito bonito e emocionante. Ainda mais quando lembramos que a região da Leopoldina, parte dela dominada por quadrilhas bem armadas, tornou-se foco principal da ação da polícia. Foi lá que, no ano passado, dezenas de Marias e Joãos inocentes foram mortos em nome do combate ao tráfico. E é lá que, de acordo com a previsão do secretário de Segurança Pública, deverão ocorrer outras mortes, digamos, civis. Em meio à barbárie, não custa celebrar de novo as Marias e os Joãos responsáveis pela criação de belezas como os desfiles das escolas de samba. Vida longa e feliz para todos eles.
E Leopoldina será nossa imperatriz
Será também nome de trem
Que passa em Ramos, a nossa estação
Onde imperam Marias e Joãos
8 de fevereiro de 2008
Isso me irrita! (1)
Agenciadores de táxi - ou os próprios taxistas - gritando "Táxi!Táxi!Táxi!". Como já disse algumas vezes para esses sujeitos: eu é que tenho que chamar o táxi, não é o táxi que tem que me chamar.
7 de fevereiro de 2008
Arquivando o tamborim
O 10o. lugar para a Mangueira tem apenas uma explicação: as notas baixas não foram para a escola, mas para o Tuchinha, o traficante que andou frevando pela quadra e virou parceiro do samba. A Mangueira pagou pelas más companhias.
Por falar em sambandido. Pode ser paranóia, mas levei um susto com o refrão do samba da Mocidade Independente:
"Minha Mocidade guerreira
Traz a igualdade, justiça e paz."
Igualdade, justiça e paz - nada contra, muito pelo contrário. O problema é que a seqüência é parecida demais com o lema do CV: "Paz, justiça e liberdade." Na dúvida, parei de cantar o refrão no sambódromo.
Diz a lenda que, antigamente, o Aniz/"Anísio" reclamava: investia uma grana no carnaval e tudo ia por água abaixo na hora em que o Jamelão cantava "Mangueira teu cenário é uma beleza." Pelo jeito, o Neguinho herdou o posto. Pelo carisma, pela simpatia, pela hoje rara fidelidade à escola. O "Olha a Beija-Flor aí, gente!" já é meio caminho andado.
Por falar em Neguinho: foi impressão minha ou a voz dele anda meio assim-assim? Durante o desfile, dava pra ouvir apenas o coro de puxadores. Tomara que seja algo passageiro ou apenas impressão minha.
Não vi, mas um amigo - torcedor da Beija-Flor - observou e contou: a grande Selminha Sorriso deixou a bandeira enrolar diante da cabine do último julgador. Mas não perdeu um décimo sequer.
A máquina de desfilar em que se transformou a Beija-Flor (a definição é de um amigo) reforça a diferença entre escolas de samba e blocos - nestes, dá pra brincar carnaval; naquelas, nada disso. O padrão Beija-Flor impõe um desfile ainda mais técnico do que os apresentados pela Imperatriz há alguns anos.
O Laíla, diretor de Carnaval e de Harmonia da Beija-Flor, é uma espécie de Bernardinho do samba. Quem já foi a um ensaio na quadra da escola sabe do que estou falando.
Por falar em sambandido. Pode ser paranóia, mas levei um susto com o refrão do samba da Mocidade Independente:
"Minha Mocidade guerreira
Traz a igualdade, justiça e paz."
Igualdade, justiça e paz - nada contra, muito pelo contrário. O problema é que a seqüência é parecida demais com o lema do CV: "Paz, justiça e liberdade." Na dúvida, parei de cantar o refrão no sambódromo.
Diz a lenda que, antigamente, o Aniz/"Anísio" reclamava: investia uma grana no carnaval e tudo ia por água abaixo na hora em que o Jamelão cantava "Mangueira teu cenário é uma beleza." Pelo jeito, o Neguinho herdou o posto. Pelo carisma, pela simpatia, pela hoje rara fidelidade à escola. O "Olha a Beija-Flor aí, gente!" já é meio caminho andado.
Por falar em Neguinho: foi impressão minha ou a voz dele anda meio assim-assim? Durante o desfile, dava pra ouvir apenas o coro de puxadores. Tomara que seja algo passageiro ou apenas impressão minha.
Não vi, mas um amigo - torcedor da Beija-Flor - observou e contou: a grande Selminha Sorriso deixou a bandeira enrolar diante da cabine do último julgador. Mas não perdeu um décimo sequer.
A máquina de desfilar em que se transformou a Beija-Flor (a definição é de um amigo) reforça a diferença entre escolas de samba e blocos - nestes, dá pra brincar carnaval; naquelas, nada disso. O padrão Beija-Flor impõe um desfile ainda mais técnico do que os apresentados pela Imperatriz há alguns anos.
O Laíla, diretor de Carnaval e de Harmonia da Beija-Flor, é uma espécie de Bernardinho do samba. Quem já foi a um ensaio na quadra da escola sabe do que estou falando.
5 de fevereiro de 2008
Azul, branco e penas
Pode parecer implicância, mas, nesta madrugada, quando a Beija-Flor passou, fiquei com a impressão de já ter visto aquele desfile. As fantasias (muitas penas, muito índio), os carros alegóricos (igualmente penugentos), o samba-enredo: a melodia, o refrão, os versos cheios de palavras e nomes incomuns, tudo lembrava carnavais passados.
Fui então dar uma olhada nos sambas apresentados pela escola nos últimos anos. A seguir, trechos misturados das letras:
Os cunanis, aristés, maracás
A luz que vem de Daomé, reino de Dan
É jeje, é jeje, é querebentã
na “yvy maraey” aiê... povo de fé.
Maués, Anauê cultura milenar
com tubichá e o feitiço de crué
Anauê, Manaus, Mamirauá.
Até pensei num samba para 2009. Algo como:
Assum anê, pondé querê
Mutum cauê:
cereco e tanta.
Teteco alê, surubantê...
Ô dinguelê, mestre de bamba.
O que quer dizer isso? Sei lá, mas fica aí uma contribuição mangueirense para a competente escola de Nilópolis.
Fui então dar uma olhada nos sambas apresentados pela escola nos últimos anos. A seguir, trechos misturados das letras:
Os cunanis, aristés, maracás
A luz que vem de Daomé, reino de Dan
É jeje, é jeje, é querebentã
na “yvy maraey” aiê... povo de fé.
Maués, Anauê cultura milenar
com tubichá e o feitiço de crué
Anauê, Manaus, Mamirauá.
Até pensei num samba para 2009. Algo como:
Assum anê, pondé querê
Mutum cauê:
cereco e tanta.
Teteco alê, surubantê...
Ô dinguelê, mestre de bamba.
O que quer dizer isso? Sei lá, mas fica aí uma contribuição mangueirense para a competente escola de Nilópolis.
2 de fevereiro de 2008
Justiça na madrugada
O tema da proibição do carro da Viradouro sobre o holocausto é delicado: a Constituição garante a liberdade de expressão, a lei municipal que impõe restrições aos desfile trata apenas do chamado vilipêndio a símbolos religiosos. Na dúvida, fico com o direito à liberdade, ainda que respeite e entenda o sentimento dos que, judeus ou não, se chocaram com a alegoria (barra-pesada demais para um desfile. O ótimo Paulo Barros poderia ter encontrado um jeito mais delicado e carnavalesco para tocar no tema: corpos amontoados, Hitler arrependido... argh!).
Muita gente contrária à decisão judicial que proibiu o carro alegou que a juíza que concedeu a liminar seria judia, o que a impediria de julgar o caso com isenção. Discordo. Não dá pra fazer uma associação tão automática assim. É até perigoso cairmos num determinismo deste tipo. Além do mais, nem todos os judeus - como está na edição de hoje de O Globo - concordaram com a decisão da Federação Israelita de pedir a proibição do carro.
Mas um ponto me intriga: a decisão de se recorrer ao plantão judiciário para se buscar a liminar. Isso ocorreu de quarta para quinta, ou seja, os advogados teriam ainda dois dias úteis para recorrer ao Judiciário. Neste caso, eles não saberiam que juiz iria analisar o pedido. Mas preferiram agir à noite ou de madrugada: em tese, eles poderiam saber quem era o juiz (no caso, a juíza) que estaria de plantão. A escala de plantonistas é divulgada no site do Tribunal de Justiça do Rio(hoje, sábado, é a juíza Marcia Cunha Silva Araujo de Carvalho; amanhã e depois, Fernanda Galliza do Amaral).
A questão, insisto, não é se a juíza é ou não judia - faço questão de não apurar isso. Acho até que seria racismo dizer que ela julgaria de acordo com pressupostos étnicos ou religiosos. Também não dá para sequer insinuar que ela já tivesse uma posição a respeito do caso. O problema é que os advogados sabiam que ela é que iria analisar o pedido. O plantão judidicário é para resolver questões urgentes - segundo o próprio site do TJ, casos como habeas corpus, prisão preventiva, busca e apreensão de menor, medida para ingresso em local onde exista alguém em risco, entre outros. Teria sido melhor se os advogados esperassem a abertura do fórum para pedir a liminar - que seria julgado por um juiz não previamente determinado.
Muita gente contrária à decisão judicial que proibiu o carro alegou que a juíza que concedeu a liminar seria judia, o que a impediria de julgar o caso com isenção. Discordo. Não dá pra fazer uma associação tão automática assim. É até perigoso cairmos num determinismo deste tipo. Além do mais, nem todos os judeus - como está na edição de hoje de O Globo - concordaram com a decisão da Federação Israelita de pedir a proibição do carro.
Mas um ponto me intriga: a decisão de se recorrer ao plantão judiciário para se buscar a liminar. Isso ocorreu de quarta para quinta, ou seja, os advogados teriam ainda dois dias úteis para recorrer ao Judiciário. Neste caso, eles não saberiam que juiz iria analisar o pedido. Mas preferiram agir à noite ou de madrugada: em tese, eles poderiam saber quem era o juiz (no caso, a juíza) que estaria de plantão. A escala de plantonistas é divulgada no site do Tribunal de Justiça do Rio(hoje, sábado, é a juíza Marcia Cunha Silva Araujo de Carvalho; amanhã e depois, Fernanda Galliza do Amaral).
A questão, insisto, não é se a juíza é ou não judia - faço questão de não apurar isso. Acho até que seria racismo dizer que ela julgaria de acordo com pressupostos étnicos ou religiosos. Também não dá para sequer insinuar que ela já tivesse uma posição a respeito do caso. O problema é que os advogados sabiam que ela é que iria analisar o pedido. O plantão judidicário é para resolver questões urgentes - segundo o próprio site do TJ, casos como habeas corpus, prisão preventiva, busca e apreensão de menor, medida para ingresso em local onde exista alguém em risco, entre outros. Teria sido melhor se os advogados esperassem a abertura do fórum para pedir a liminar - que seria julgado por um juiz não previamente determinado.
31 de janeiro de 2008
Filhos eternos

Não é muito original dizer isso, mas não custa repetir que "O filho eterno", de Cristovão Tezza (Record), é um ótimo livro. E o melhor: conheço algumas pessoas que já o leram. Isso permite algo difícil nesses tempos: conversar, ainda que por e-mail, sobre um livro. Numa dessas conversas, um amigo me chamou a atenção para um dado interessante de "O filho eterno": no fundo, o personagem principal também busca o pai. No processo de rejeitação/aceitação do filho down, ele também se descobre filho, um filho igualmente eterno.
Essa observação permitiu - e a conversa foi seguindo - perceber o quanto o autor é hábil ao criar discretos paralelismos entre a história de seu filho e fatos de sua própria biografia. O filho tem uma deficiência que lhe causa óbvios problemas de adaptação ao mundo. Mas, ao refletir sobre o filho, o pai reconhece suas menos explícitas dificuldades. A humanização do personagem principal se dá de forma gradual. Algo só pode existir na medida em que ele também se descobre incapaz, inadaptado. A deficiência de um expõe a do outro. Uma leitura que nos ressalta o como, de alguma forma, somos todos meio (ou muito) incapazes e inadaptados. E é essa perspectiva que faz de "O filho eterno" um livro profundamente humano.
29 de janeiro de 2008
Bandeiradas
"Normalmente é no banco de trás. O banco é rebatível, sabe? Fica feito uma cama. Mas, de vez em quando, na pressa, é aqui na frente mesmo. Nesse banco aí que você tá sentado."
"Ahã", devo ter dito, enquanto conferia de maneira exagerada e caricatural o estado do assento, do banco do carona.
"Aqui tá tudo limpinho, né, companheiro?", brinquei: "Pelo visto tá tudo seco..."
O sujeito pareceu gostar da brincadeira. Ficou mais à vontade para prosseguir no relato de suas aventuras sexuais no táxi.
"Ali atrás - fez, com uma ligeira virada de rosto, uma referência à mala do carro - tenho tudo que precisa. Lençol, travesseiro, camisinha..."
Mas, e a violência, os assaltos? Não seria complicado namorar no carro hoje em dia? Onde é que ele parava o táxi? Havia alguns locais. Mas o preferido era um depósito de material de construção, lá perto de sua casa, em Nova Iguaçu. Estacionava bem atrás de um monte de areia.
As, digamos, passageiras eram fixas?
Variava, eu deveria saber. A namorada mesmo não gostava tanto dos malabarismos no táxi. Cliente de carteirinha mesmo era a filha de uma vizinha, 16 aninhos de pura sacanagem. Mal podia ver o táxi passar pela rua.
"Só as duas?"Ele fez um ar de cansaço, de quem anda rodando mais do que o razoável. Aquele jeito de quem diz isso-aqui-ainda-acaba-comigo.
"Que nada. Parece até que elas adivinham, que fazem sinal de propósito. Fingem que querem o táxi, mas ficam mesmo de olho no kit que tem lá na mala."
"Ahã", devo ter dito, enquanto conferia de maneira exagerada e caricatural o estado do assento, do banco do carona.
"Aqui tá tudo limpinho, né, companheiro?", brinquei: "Pelo visto tá tudo seco..."
O sujeito pareceu gostar da brincadeira. Ficou mais à vontade para prosseguir no relato de suas aventuras sexuais no táxi.
"Ali atrás - fez, com uma ligeira virada de rosto, uma referência à mala do carro - tenho tudo que precisa. Lençol, travesseiro, camisinha..."
Mas, e a violência, os assaltos? Não seria complicado namorar no carro hoje em dia? Onde é que ele parava o táxi? Havia alguns locais. Mas o preferido era um depósito de material de construção, lá perto de sua casa, em Nova Iguaçu. Estacionava bem atrás de um monte de areia.
As, digamos, passageiras eram fixas?
Variava, eu deveria saber. A namorada mesmo não gostava tanto dos malabarismos no táxi. Cliente de carteirinha mesmo era a filha de uma vizinha, 16 aninhos de pura sacanagem. Mal podia ver o táxi passar pela rua.
"Só as duas?"Ele fez um ar de cansaço, de quem anda rodando mais do que o razoável. Aquele jeito de quem diz isso-aqui-ainda-acaba-comigo.
"Que nada. Parece até que elas adivinham, que fazem sinal de propósito. Fingem que querem o táxi, mas ficam mesmo de olho no kit que tem lá na mala."
27 de janeiro de 2008
Naicetomitiu

"O que quer dizer 'naicetomitiu'?". O motorista do táxi queria descobrir o que o gringo dissera para ele. Naicetomitiu.
"Ele, pelo visto, gostou do seu trabalho. É uma forma de agradecimento, uma maneira de dizer que ficou feliz em conhecê-lo."
"Ah, bom."
Pensou que fosse alguma sacanagem, língua de gringo, sabe como é que é. Fica tranqüilo, foi um elogio.
"Conheço algumas palavras em inglês. Thank you, good morning. Mas nunca tinha ouvido o naicetomitiu. Quer dizer que ele gostou do meu serviço?"
O taxista demonstrava não confiar muito no agradecimento do gringo nem na minha capacidade de traduzir o que ele dissera (neste ponto, sua dúvida fazia algum sentido).
"Já falei, amigo - disse enquanto pagava a corrida. - Foi um elogio. Você é um bom motorista."
"Tá bom, OK. Mas... (eu já tinha colocado meio corpo pra fora do táxi, mas havia uma outra questão, urgente, pelo visto, a ser resolvida) ...o que quer dizer rropetosiuagueim?"
25 de janeiro de 2008
Eu e o meme, o meme e eu
Recebi este meme do Marcelo Moutinho, que o recebera da Adriana Lisboa. Não sei muito bem o que é um meme, pelo jeito, é um questionário com nome diferente. Pior é que nem sei como passar esse trem adiante. Mas, vamos lá, vou tentar responder às perguntas.
1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Participava de um cineclube, estudava para o vestibular, era aluno do Colégio Metropolitano, no Méier - queria ser jornalista. Gostava muito das aulas de literatura, o professor era o Ivan Cavalcanti Proença. Torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
2. E em 1983, há 25?
Trabalhava na sucursal Rio do "Estadão", onde estagiara por um ano. Fui contratado, se não me engano, em março. Em dezembro, aluguei um apartamento em Botafogo, na rua Sorocaba, e fui morar sozinho. Não exatamente sozinho: o apartamento, térreo, era visitado por milhares de baratas, o que deve ter contribuído para uma certa solidão - mulheres e suas implicâncias bobas. Torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
3. O que você estava fazendo em 1988?
Era repórter da sucursal Rio da "Folha" - ou chefe de reportagem, sei lá. No apartamento de Vila Isabel, trocava fraldas de meu filho nascido no ano anterior, cantava sambas-enredos para ele dormir ("Os sertões" era o favorito, o moleque caia no sono ao som de "Os jagunços lutaram, até o final/Defendendo Canudos naquela guerra fatal"). Babava diante do meu primeiro filho; com auxílio de amigos, cuidava para fazer com que seu coração adotasse a estrela solitária que me conduz. Por falar nisso: torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
4. E em 1993?
Morava na Tijuca, cuidava de meus dois filhos alvinegros (o mais novo tinha dois anos, também ouvia sambas-enredos para dormir enquanto eu babava diante dele). Era repórter especial da "Folha". Comemorava os diversos títulos do Botafogo.
5. O que estava fazendo há 10 anos?
Já trabalhava na Globo - se não me engano, tinha acabado de migrar para a redação do Fantástico, onde ficaria por oito anos. O primeiro casamento fora pro espaço, tinha voltado a morar sozinho - na Tijuca, Leblon e no Humaitá.
6. E há cinco?
Terminava meu segundo livro, estava no meio do segundo casamento, torcia para o Botafogo sair da segunda divisão.
1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Participava de um cineclube, estudava para o vestibular, era aluno do Colégio Metropolitano, no Méier - queria ser jornalista. Gostava muito das aulas de literatura, o professor era o Ivan Cavalcanti Proença. Torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
2. E em 1983, há 25?
Trabalhava na sucursal Rio do "Estadão", onde estagiara por um ano. Fui contratado, se não me engano, em março. Em dezembro, aluguei um apartamento em Botafogo, na rua Sorocaba, e fui morar sozinho. Não exatamente sozinho: o apartamento, térreo, era visitado por milhares de baratas, o que deve ter contribuído para uma certa solidão - mulheres e suas implicâncias bobas. Torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
3. O que você estava fazendo em 1988?
Era repórter da sucursal Rio da "Folha" - ou chefe de reportagem, sei lá. No apartamento de Vila Isabel, trocava fraldas de meu filho nascido no ano anterior, cantava sambas-enredos para ele dormir ("Os sertões" era o favorito, o moleque caia no sono ao som de "Os jagunços lutaram, até o final/Defendendo Canudos naquela guerra fatal"). Babava diante do meu primeiro filho; com auxílio de amigos, cuidava para fazer com que seu coração adotasse a estrela solitária que me conduz. Por falar nisso: torcia para o Botafogo quebrar o jejum de títulos.
4. E em 1993?
Morava na Tijuca, cuidava de meus dois filhos alvinegros (o mais novo tinha dois anos, também ouvia sambas-enredos para dormir enquanto eu babava diante dele). Era repórter especial da "Folha". Comemorava os diversos títulos do Botafogo.
5. O que estava fazendo há 10 anos?
Já trabalhava na Globo - se não me engano, tinha acabado de migrar para a redação do Fantástico, onde ficaria por oito anos. O primeiro casamento fora pro espaço, tinha voltado a morar sozinho - na Tijuca, Leblon e no Humaitá.
6. E há cinco?
Terminava meu segundo livro, estava no meio do segundo casamento, torcia para o Botafogo sair da segunda divisão.
24 de janeiro de 2008
Páginas amarelas (5) Anistia
Conversei ontem com um colega de redação sobre as fotos que mostram PMs saqueando um caminhão de entrega de cerveja. Ele fez um diagnóstico e uma proposta: do jeito que está a polícia do Rio, só há um jeito, começar tudo de novo. Sugeriu uma anistia para policiais infratores e um recomeço, que teria que ser acompanhado de uma reestruturação da PM - a criação de um outro patamar salarial seria mais do que recomendável. Na conversa, surgiu um consenso meio óbvio: a criminalidade só chegou ao atual estágio graças à colaboração e conivência de setores policiais. É o que explica a quantidade de armas e de munição à disposição dos bandidos. Uma anistia ampla - e que excluísse os casos de crimes contra a vida - talvez fosse interessante.
Lembrei de um texto que escrevi em 1996 e que foi publicado na "Folha". Hoje talvez ele pareça meio inocente, sei lá. Mas, diante da complexidade do problema, não custa - até como exercício - pensarmos em soluções mais originais . O investimento no aumento da repressão e no uso da violência policial tem sido recorrente nos últimos 20 e poucos anos. O resultado, todos conhecemos. Na época, falei em anistia para bandidos, talvez seja o caso de - como quer meu amigo - incluir os fardados no pacote.
Pacto da Rocinha
Folha de S.Paulo, 13/01/1996
Fernando Molica
RIO DE JANEIRO _ Mesmo os defensores da solução policial para o problema da violência admitem que a raiz da situação de conflito está plantada no solo das carências e desigualdades sociais.
Já há algum tempo, estudiosos da situação carioca detectaram que, em muitas favelas, o poder formal perdeu a batalha para outro _um poder real, de fato, exercido pelo tráfico de drogas e construído com base no medo e em uma espécie de senso difuso que identifica no Estado uma espécie de inimigo, uma entidade que só aparece por ali metido em uniforme de polícia.
Há alguns anos falava-se no Brasil em um pacto social, um acordo inspirado no Pacto de Moncloa (o que viabilizou a transição democrática na Espanha) e que permitiria à sociedade administrar as liberdades recém-conquistadas.
Bem ou mal, o Brasil institucionalizou-se. Esse processo deixou de fora, porém, milhões de pessoas. Muitas dessas, como os sem-terra, continuam dispostos a participar da brincadeira: para isso chegam a arranhar a legalidade, mas seu objetivo final é o de integração na sociedade.
Outros, como os jovens que vivem armados em favelas cariocas, já perderam essa expectativa de integração: seu horizonte institucional aponta apenas para a cadeia.
A reversão desse quadro exigiria atitudes mais corajosas. O pressuposto seria o Estado e a sociedade admitirem sua responsabilidade na criação das condições que permitiram a expansão da miséria e da violência.
Dessa constatação e da vontade de mudança surgiria uma espécie de ''Pacto da Rocinha'' _isso para citar uma das mais célebres favelas cariocas. Seria um acordo pelo qual o Estado, em seus diferentes níveis, se comprometeria a resgatar a tal dívida social, expressa hoje na falta de empregos, saneamento básico, escolas, transporte e atendimento médico.
Seria também necessário desarmar os grupos marginais. Para isso seria possível até pensar em uma solução que incluísse uma anistia em troca das armas. Anistia que viria acompanhada de oportunidades reais de integração social. É uma proposta arriscada, mas que, se bem-sucedida, proporcionaria ganhos para os dois lados. Seria, talvez, o início de uma sociedade mais justa e menos violenta.
Lembrei de um texto que escrevi em 1996 e que foi publicado na "Folha". Hoje talvez ele pareça meio inocente, sei lá. Mas, diante da complexidade do problema, não custa - até como exercício - pensarmos em soluções mais originais . O investimento no aumento da repressão e no uso da violência policial tem sido recorrente nos últimos 20 e poucos anos. O resultado, todos conhecemos. Na época, falei em anistia para bandidos, talvez seja o caso de - como quer meu amigo - incluir os fardados no pacote.
Pacto da Rocinha
Folha de S.Paulo, 13/01/1996
Fernando Molica
RIO DE JANEIRO _ Mesmo os defensores da solução policial para o problema da violência admitem que a raiz da situação de conflito está plantada no solo das carências e desigualdades sociais.
Já há algum tempo, estudiosos da situação carioca detectaram que, em muitas favelas, o poder formal perdeu a batalha para outro _um poder real, de fato, exercido pelo tráfico de drogas e construído com base no medo e em uma espécie de senso difuso que identifica no Estado uma espécie de inimigo, uma entidade que só aparece por ali metido em uniforme de polícia.
Há alguns anos falava-se no Brasil em um pacto social, um acordo inspirado no Pacto de Moncloa (o que viabilizou a transição democrática na Espanha) e que permitiria à sociedade administrar as liberdades recém-conquistadas.
Bem ou mal, o Brasil institucionalizou-se. Esse processo deixou de fora, porém, milhões de pessoas. Muitas dessas, como os sem-terra, continuam dispostos a participar da brincadeira: para isso chegam a arranhar a legalidade, mas seu objetivo final é o de integração na sociedade.
Outros, como os jovens que vivem armados em favelas cariocas, já perderam essa expectativa de integração: seu horizonte institucional aponta apenas para a cadeia.
A reversão desse quadro exigiria atitudes mais corajosas. O pressuposto seria o Estado e a sociedade admitirem sua responsabilidade na criação das condições que permitiram a expansão da miséria e da violência.
Dessa constatação e da vontade de mudança surgiria uma espécie de ''Pacto da Rocinha'' _isso para citar uma das mais célebres favelas cariocas. Seria um acordo pelo qual o Estado, em seus diferentes níveis, se comprometeria a resgatar a tal dívida social, expressa hoje na falta de empregos, saneamento básico, escolas, transporte e atendimento médico.
Seria também necessário desarmar os grupos marginais. Para isso seria possível até pensar em uma solução que incluísse uma anistia em troca das armas. Anistia que viria acompanhada de oportunidades reais de integração social. É uma proposta arriscada, mas que, se bem-sucedida, proporcionaria ganhos para os dois lados. Seria, talvez, o início de uma sociedade mais justa e menos violenta.
22 de janeiro de 2008
Sassaricando 2050
O post sobre o inglório destino dos sambas derrotados rendeu aqui no blog uma discussão interessante, com apenas uma ou outra canelada. A Eugenia, uma das editoras da Agenda do Samba e Choro - http://www.samba-choro.com.br/ - , chegou a propor o lançamento de um CD com sambas não escolhidos pelos jurados. Eu não pedi tanto, apenas reivindiquei o direito de, vez por outra, cantar um ou outro samba escanteado. Mas sei que é uma luta meio inglória: sambas vencedores já não duram muito, imagine o ocorre com os defenestrados...
Sambas de bloco são, de um modo geral, muito ligados ao contexto em que foram compostos e não têm qualquer pretensão à imortalidade. Mas talvez por isso mesmo mereçam ser guardados. Sua irresponsabilidade e descompromisso se traduzem em leveza e num certo ar de testemunho de época. Na prática, ocupam hoje o lugar das marchinhas - quem viu "Sassaricando" percebeu como elas, em décadas passadas, cumpriam o papel da sátira, da brincadeira, da crônica. Mais do que um ótimo espetáculo sobre marchinhas, "Sassaricando" é sobre o Rio, de como cariocas aproveitavam o carnaval para falar, de maneira bem-humorada, da cidade e do país.
Esse papel hoje é cumprido pelos blocos e seus sambas, que escrevem nas ruas um quase roteiro de nossas alegrias e sacanagens. Mesmo uma eventual agressividade de uma ou outra letra não deixa de ser um certo reflexo de tempos como o nosso, em que a sutileza tende a perder embates de goleada.
Pelo que sei - e não sei muito -, apenas o Simpatia lançou, há alguns anos, um CD com seus sambas. Acho que alguma instituição - o Arquivo Geral da Cidade ou o MIS - poderia lançar um projeto para recolher, catalogar e mesmo gravar os sambas (tá bom, só os vencedores) que os cariocas têm cantado pelas ruas antes e durante o carnaval. Todos seriam disponibilizados na internet. Não deve sair caro, não precisa de muita burocracia nem de pagamento de direitos autorais. Acho que a Sebastiana - entidade que reúne os blocos da zona sul - toparia ingressar nessa tarefa. "Sassaricando" existe porque as marchinhas foram registradas e gravadas, o que permitiu o trabalho de pesquisa da Rosa Maria Araújo e do Sérgio Cabral. Acho que não custa nada tentar garantir hoje o "Sassaricando" de 2050.
Sambas de bloco são, de um modo geral, muito ligados ao contexto em que foram compostos e não têm qualquer pretensão à imortalidade. Mas talvez por isso mesmo mereçam ser guardados. Sua irresponsabilidade e descompromisso se traduzem em leveza e num certo ar de testemunho de época. Na prática, ocupam hoje o lugar das marchinhas - quem viu "Sassaricando" percebeu como elas, em décadas passadas, cumpriam o papel da sátira, da brincadeira, da crônica. Mais do que um ótimo espetáculo sobre marchinhas, "Sassaricando" é sobre o Rio, de como cariocas aproveitavam o carnaval para falar, de maneira bem-humorada, da cidade e do país.
Esse papel hoje é cumprido pelos blocos e seus sambas, que escrevem nas ruas um quase roteiro de nossas alegrias e sacanagens. Mesmo uma eventual agressividade de uma ou outra letra não deixa de ser um certo reflexo de tempos como o nosso, em que a sutileza tende a perder embates de goleada.
Pelo que sei - e não sei muito -, apenas o Simpatia lançou, há alguns anos, um CD com seus sambas. Acho que alguma instituição - o Arquivo Geral da Cidade ou o MIS - poderia lançar um projeto para recolher, catalogar e mesmo gravar os sambas (tá bom, só os vencedores) que os cariocas têm cantado pelas ruas antes e durante o carnaval. Todos seriam disponibilizados na internet. Não deve sair caro, não precisa de muita burocracia nem de pagamento de direitos autorais. Acho que a Sebastiana - entidade que reúne os blocos da zona sul - toparia ingressar nessa tarefa. "Sassaricando" existe porque as marchinhas foram registradas e gravadas, o que permitiu o trabalho de pesquisa da Rosa Maria Araújo e do Sérgio Cabral. Acho que não custa nada tentar garantir hoje o "Sassaricando" de 2050.
21 de janeiro de 2008
Trabalhadores do samba
20 de janeiro de 2008
Jornada no Engenhão
Zé Carlos comemora seu gol, o primeiro do jogo de sábado passado. O Botafogo venceu por 2 a 0.Se algum dia virar editor de Esportes vou baixar uma norma na redação: pelo menos um repórter escalado para cobrir um jogo vai entrar no estádio como torcedor. Ou seja: terá que comprar ingresso (pago pelo jornal, claro), encarar fila, roleta, ameaça de briga de torcida; e será obrigado a ver o jogo da arquibancada. Explico: as naturais facilidades oferecidas aos jornalistas credenciados acabam fazendo com ele não olhe para os bastidores do espetáculo. E é aí que o bicho pega.
Neste sábado fui com meus filhos ao Engenhão ver o Botafogo ganhar do Resende. De cara, uma boa surpresa, que não vi publicada no jornal (tive que, vergonha!, ligar para um assessor de imprensa do time para conferir): o estacionamento do estádio poderia ser utilizado mediante o pagamento de R$ 10,00. Vale a pena. O lugar é amplo, seguro, a administração foi terceirizada: mas faltou dar uma varrida ali. A quantidade de poeira no chão é assustadora, havia uma nuvem de pó flutando no ar: o carro ficou todo sujo. Coitados dos caras que ficaram horas ali, trabalhando, devem estar tossindo até agora.
A entrada no estádio foi tranqüila (chegamos mais de uma hora antes do jogo), mas... A diretoria do Fogão decidiu separar o estádio por setores, cobrando preços diferenciados. Boa idéia. O problema é que falou divulgar um detalhe: ao contrário do que ocorre nas arquibancadas do Maracanã, o torcedor teria, obrigatoriamente, que entrar no estádio pelo portão correspondente ao seu setor. Lá dentro, descobrimos depois, não havia como trocar de lado. Pior: as roletas aceitavam bilhetes independentemente do setor - assim, quem comprou ingresso para, digamos, o setor sul (mais barato), poderia passar seu ingresso pela roleta do oeste (mais caro). E vice-versa. É claro que deu confusão. Dentro do estádio, muitos tentavam trocar de setor e esbarravam nos seguranças que, coitados, não tinham autoridade para resolver o problema. Mas isso, tenho certeza, será resolvido pela diretoria do Botafogo - o Bebeto de Freitas é, de longe, o melhor dirigente do futebol carioca e seus planos para o Engenhão são muito bons (ele promete anunciar novidades nesta segunda).
Ah, uma questão mais grave: foram colocadas placas de publicidade numa lateral e atrás dos gols. OK, é preciso faturar. O problema é que as tais placas impedem a visão da bola de quem estiver sentado nas primeiras filas das arquibancadas. Por "primeiras filas" entenda-se, no barato, as dez primeiras - estava lá de torcedor, não parei para contar, apurar matéria. Mas sei que tive que ir subindo, subindo, subindo até conseguir uma cadeira que me permitisse ver todo o jogo. Quem estava abaixo de mim não viu o drible espetacular que o Jorge Henrique deu no zagueiro do Resende e que resultou no segundo gol do Botafogo. É preciso encontrar uma solução melhor, talvez colocar as placas num local mais longe do campo - por que não naquela faixa até hoje ocupada pelos já anacrônicos símbolos do PAN? O torcedor que pagou o ingresso tem direito de ver o jogo todo.
Bem, no mais, o Castillo tem jeito de ser um goleiro sério e o Ferrero jogou por dois: por ele e pelo Renato Silva, o zagueiro que fumou a maconha mais potente do mundo. Até hoje parece jogar sob o efeito da dita cuja. O Triguinho esteve bem. O Zé Carlos e o Wellington Paulista fizeram gols na estréia oficial, e isso é muito bom.
Neste sábado fui com meus filhos ao Engenhão ver o Botafogo ganhar do Resende. De cara, uma boa surpresa, que não vi publicada no jornal (tive que, vergonha!, ligar para um assessor de imprensa do time para conferir): o estacionamento do estádio poderia ser utilizado mediante o pagamento de R$ 10,00. Vale a pena. O lugar é amplo, seguro, a administração foi terceirizada: mas faltou dar uma varrida ali. A quantidade de poeira no chão é assustadora, havia uma nuvem de pó flutando no ar: o carro ficou todo sujo. Coitados dos caras que ficaram horas ali, trabalhando, devem estar tossindo até agora.
A entrada no estádio foi tranqüila (chegamos mais de uma hora antes do jogo), mas... A diretoria do Fogão decidiu separar o estádio por setores, cobrando preços diferenciados. Boa idéia. O problema é que falou divulgar um detalhe: ao contrário do que ocorre nas arquibancadas do Maracanã, o torcedor teria, obrigatoriamente, que entrar no estádio pelo portão correspondente ao seu setor. Lá dentro, descobrimos depois, não havia como trocar de lado. Pior: as roletas aceitavam bilhetes independentemente do setor - assim, quem comprou ingresso para, digamos, o setor sul (mais barato), poderia passar seu ingresso pela roleta do oeste (mais caro). E vice-versa. É claro que deu confusão. Dentro do estádio, muitos tentavam trocar de setor e esbarravam nos seguranças que, coitados, não tinham autoridade para resolver o problema. Mas isso, tenho certeza, será resolvido pela diretoria do Botafogo - o Bebeto de Freitas é, de longe, o melhor dirigente do futebol carioca e seus planos para o Engenhão são muito bons (ele promete anunciar novidades nesta segunda).
Ah, uma questão mais grave: foram colocadas placas de publicidade numa lateral e atrás dos gols. OK, é preciso faturar. O problema é que as tais placas impedem a visão da bola de quem estiver sentado nas primeiras filas das arquibancadas. Por "primeiras filas" entenda-se, no barato, as dez primeiras - estava lá de torcedor, não parei para contar, apurar matéria. Mas sei que tive que ir subindo, subindo, subindo até conseguir uma cadeira que me permitisse ver todo o jogo. Quem estava abaixo de mim não viu o drible espetacular que o Jorge Henrique deu no zagueiro do Resende e que resultou no segundo gol do Botafogo. É preciso encontrar uma solução melhor, talvez colocar as placas num local mais longe do campo - por que não naquela faixa até hoje ocupada pelos já anacrônicos símbolos do PAN? O torcedor que pagou o ingresso tem direito de ver o jogo todo.
Bem, no mais, o Castillo tem jeito de ser um goleiro sério e o Ferrero jogou por dois: por ele e pelo Renato Silva, o zagueiro que fumou a maconha mais potente do mundo. Até hoje parece jogar sob o efeito da dita cuja. O Triguinho esteve bem. O Zé Carlos e o Wellington Paulista fizeram gols na estréia oficial, e isso é muito bom.
17 de janeiro de 2008
Binhos
Outro dia citei aqui uma matéria da "Piauí" que trazia nomes de supostos vinhos portugueses. Achei a dita cuja no site da revista. É, na verdade, um cartum do Reinaldo. Muito bom, por sinal. Vejam só se os vinhos a seguir não fariam, numa adega, boa companhia ao "Monte dos Cabaços".
Cova da Buça, Quinta das Culhoneiras, Nnhenhenha de Trás-os-Fanhos, Adega do Borzeguim Fanchão, Herdade Lariquinha de Chincheiral e Peúgas de Aldrabão.
Cova da Buça, Quinta das Culhoneiras, Nnhenhenha de Trás-os-Fanhos, Adega do Borzeguim Fanchão, Herdade Lariquinha de Chincheiral e Peúgas de Aldrabão.
16 de janeiro de 2008
Os sambas que não devem morrer
Na foto, que peguei no blog do Moutinho, o momento em que defendíamos nosso samba, lá no palco do OdisséiaHá mais de dez carnavais que, volta e meia, acabo participando da disputa de sambas de blocos cariocas - em especial, do Imprensa que eu Gamo, fundado e tocado por jornalistas. Já paguei incontáveis micos, coleciono algumas derrotas e duas memoráveis vitórias - ambas, no Imprensa. Na madrugada desta terça, eu e meus parceiros Marcelo Moutinho e Gabriel Cavalcante, o Gabriel da Muda, perdemos a disputa no Imprensa, ficamos em segundo lugar, um placar apertado, três votos pra lá, dois pra cá.
Perder nunca é bom, ainda mais quando achamos que nosso, vá lá, produto, é o melhor, como foi o caso. Um dos autores do samba vencedor escreveu em seu blog que queria, com ele, "chocar a sociedade" - nós, mais modestos, desejávamos apenas ajudar a divertir uma pequena parte dela, aqueles malucos que saem pulando duas semanas antes do Carnaval pelas ruas de Laranjeiras.
Perdemos, perdemos, é do jogo, nada a reclamar. Mas as derrotas em disputas de samba trazem uma questão adicional. Por uma espécie de convenção, uma lógica de respeito ao vencedor, samba derrotado é inapelavelmente condenado a morrer. É uma espécie de aborto ou de morte pós-parto. Pelo que lembro, há apenas uma grande exceção à regra, o "Estrela de Madureira", de Acyr Cardoso e Pimentel, que, derrotado na disputa pelo samba do Império Serrano de 1975, continua a ser tocado em praticamente todas as rodas da cidade. O vencedor ("Baleiro-bala/Grita o menino assim"), quase não é lembrado.
Um livro pode vender pouco, um filme pode ser ignorado pela crítica e pelo público - mas ambos, de alguma forma, cumprem seu percurso. São lançados, exibidos e lido/vistos por um determinado número de pessoas. Nascem, vivem - e ficam ali, devidamente catalogados ou arquivados, preservados em algum modesto cantinho da história e, quiçá, da eternidade. Já o samba abortado, não. Por melhor que eventualmente seja, sobrevive, se tanto, por alguns anos na cabeça de seus autores. Não que haja assim tantas obras-primas entre esse tipo de samba - normalmente são muito ligados à realidade imediata, o que reduz um pouco alguma possibilidade de vida eterna, amém. Mas, caramba, foram todos compostos com dedicação, carinho e algum talento. Esse destino do samba que, se não ganhar, vai se perder, contribuiu para a minha não cumprida promessa de parar de me meter nessa doideira.
E é em protesto contra esta morte prematura, e sem qualquer disposição de levantar polêmica com a decisão da direção do bloco, que jogo aqui arquivos com letra e música do samba que eu, Moutinho e Gabriel compusemos para o Imprensa em 2008. O arquivo sonoro é precário, registrado logo depois que demos a nota final ao samba. Mas vale para a história. Espero que vocês se divirtam.
Obs: não consegui colocar o áudio aqui no blog. Vou tentar mais tarde. Por enquanto, vai a letra.
O CIRCO DA TROPA
Gabriel Cavalcante / Fernando Molica / Marcelo Moutinho
O mosquito picou o presidente
E o nosso Lula amarelou
Tomou bronca do Hugo Chavez
Foi-se o gás do Evo Morales
E no Senado, o tempo fechou
O “seu” Renan
Esqueceu da camisinha
Imprensou de qualquer jeito
E gamou na coleguinha
Relaxa e goza, meu amor
Por que não se cala e me beija?
Sem avião pra viajar BIS
No Imprensa eu vou embarcar
Zé Dirceu tá de telhado novo
Eu já tô careca de saber:
Pra virar circo, só falta a lona
Brasília ou Rio, é a mesma zona
Ô César Maia... pede pra sair!
Quebra esse galho, meu São Sebastião BIS
Quero um prefeito que não seja fanfarrão!
Perder nunca é bom, ainda mais quando achamos que nosso, vá lá, produto, é o melhor, como foi o caso. Um dos autores do samba vencedor escreveu em seu blog que queria, com ele, "chocar a sociedade" - nós, mais modestos, desejávamos apenas ajudar a divertir uma pequena parte dela, aqueles malucos que saem pulando duas semanas antes do Carnaval pelas ruas de Laranjeiras.
Perdemos, perdemos, é do jogo, nada a reclamar. Mas as derrotas em disputas de samba trazem uma questão adicional. Por uma espécie de convenção, uma lógica de respeito ao vencedor, samba derrotado é inapelavelmente condenado a morrer. É uma espécie de aborto ou de morte pós-parto. Pelo que lembro, há apenas uma grande exceção à regra, o "Estrela de Madureira", de Acyr Cardoso e Pimentel, que, derrotado na disputa pelo samba do Império Serrano de 1975, continua a ser tocado em praticamente todas as rodas da cidade. O vencedor ("Baleiro-bala/Grita o menino assim"), quase não é lembrado.
Um livro pode vender pouco, um filme pode ser ignorado pela crítica e pelo público - mas ambos, de alguma forma, cumprem seu percurso. São lançados, exibidos e lido/vistos por um determinado número de pessoas. Nascem, vivem - e ficam ali, devidamente catalogados ou arquivados, preservados em algum modesto cantinho da história e, quiçá, da eternidade. Já o samba abortado, não. Por melhor que eventualmente seja, sobrevive, se tanto, por alguns anos na cabeça de seus autores. Não que haja assim tantas obras-primas entre esse tipo de samba - normalmente são muito ligados à realidade imediata, o que reduz um pouco alguma possibilidade de vida eterna, amém. Mas, caramba, foram todos compostos com dedicação, carinho e algum talento. Esse destino do samba que, se não ganhar, vai se perder, contribuiu para a minha não cumprida promessa de parar de me meter nessa doideira.
E é em protesto contra esta morte prematura, e sem qualquer disposição de levantar polêmica com a decisão da direção do bloco, que jogo aqui arquivos com letra e música do samba que eu, Moutinho e Gabriel compusemos para o Imprensa em 2008. O arquivo sonoro é precário, registrado logo depois que demos a nota final ao samba. Mas vale para a história. Espero que vocês se divirtam.
Obs: não consegui colocar o áudio aqui no blog. Vou tentar mais tarde. Por enquanto, vai a letra.
O CIRCO DA TROPA
Gabriel Cavalcante / Fernando Molica / Marcelo Moutinho
O mosquito picou o presidente
E o nosso Lula amarelou
Tomou bronca do Hugo Chavez
Foi-se o gás do Evo Morales
E no Senado, o tempo fechou
O “seu” Renan
Esqueceu da camisinha
Imprensou de qualquer jeito
E gamou na coleguinha
Relaxa e goza, meu amor
Por que não se cala e me beija?
Sem avião pra viajar BIS
No Imprensa eu vou embarcar
Zé Dirceu tá de telhado novo
Eu já tô careca de saber:
Pra virar circo, só falta a lona
Brasília ou Rio, é a mesma zona
Ô César Maia... pede pra sair!
Quebra esse galho, meu São Sebastião BIS
Quero um prefeito que não seja fanfarrão!
14 de janeiro de 2008
Cabaços aos montes
Há alguns meses, a "Piauí" publicou um artigo de humor com supostos - e engraçadíssimos - nomes de vinhos portugueses. Uma pândega. Mas, acreditem, o vinho de que trato neste post existe, é até bem cotado no mercado. E, incrível!, é facilmente encontrável nas boas casas do ramo. Há quem o considerasse quase extinto, mas no entanto, cá está ele, pronto para ser consumido, sem culpa e sem esforço. O mais que tradicional "Monte dos Cabaços":

E não é só: o tal vinho é produzido por uma orgulhosa e - apesar de quem possa sugerir o contrário - bonita proprietária de uma tradicional quinta alentejana. A senhora Margarida Cabaço. Uma raridade, pois (ainda mais pela idade, já deve ter passado dos 40, mole). E o blog, que não pode deixar de ter algum compromisso jornalístico, apresenta a todos a foto de Dona Cabaço - ou seja, a partir de agora, ninguém poderá dizer que não liga o nome à pessoa. O senhor ao lado dela na foto deve ser o insistente e paciente maridão (paciência, sabemos todos, é algo importante na produção de vinhos). Como podem notar, o casal não tem filhos - pelo menos, eles não estão na foto.

Ah, importante, os Cabaços podem ser visitados. Confiram em http://dn.sapo.pt/2004/12/21/boa_vida/um_monte_alentejano_para_descobrir_p.html. Neste link vocês poderão encontrar detalhes para hospedagem na propriedade, aberta (quem diria...) ao turismo. Deve ser divertido, por alguns poucos dias, pelo menos. Depois deve ficar meio chato - os Cabaços não devem ser anfitriões muito, digamos, animados. Consta que são meio fechados, resistentes às investidas de estranhos, não gostam daquele entra-e-sai.

E não é só: o tal vinho é produzido por uma orgulhosa e - apesar de quem possa sugerir o contrário - bonita proprietária de uma tradicional quinta alentejana. A senhora Margarida Cabaço. Uma raridade, pois (ainda mais pela idade, já deve ter passado dos 40, mole). E o blog, que não pode deixar de ter algum compromisso jornalístico, apresenta a todos a foto de Dona Cabaço - ou seja, a partir de agora, ninguém poderá dizer que não liga o nome à pessoa. O senhor ao lado dela na foto deve ser o insistente e paciente maridão (paciência, sabemos todos, é algo importante na produção de vinhos). Como podem notar, o casal não tem filhos - pelo menos, eles não estão na foto.

Ah, importante, os Cabaços podem ser visitados. Confiram em http://dn.sapo.pt/2004/12/21/boa_vida/um_monte_alentejano_para_descobrir_p.html. Neste link vocês poderão encontrar detalhes para hospedagem na propriedade, aberta (quem diria...) ao turismo. Deve ser divertido, por alguns poucos dias, pelo menos. Depois deve ficar meio chato - os Cabaços não devem ser anfitriões muito, digamos, animados. Consta que são meio fechados, resistentes às investidas de estranhos, não gostam daquele entra-e-sai.
11 de janeiro de 2008
O furo do Tartaglia (com todo o respeito)
Num post abaixo eu disse que corria para ser o primeiro a destacar como o Gabriel da Muda canta bem. Descobri tardiamente que fui furado pelo grande Cesar Tartaglia (confiram em http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/frontdorio/post.asp?t=habemus_cantor&cod_Post=83479&a=5 . Nenhum problema, muito pelo contrário. Mesmo no mundo virtual é preciso respeitar o vale o escrito.
9 de janeiro de 2008
Overdose de notícias
De tédio é que jornalista não morre aqui no Rio. Na semana passada eu estava na entrada da ilha do Fundão entrevistando uma baleada no réveillon de Copacabana quando um sujeito passou por mim e avisou que uns duzentos metros ali na frente, na entrada do campus da UFRJ, um homem havia sido atropelado - e o socorro estava demorando a chegar. Terminada a entrevista, passamos por lá, a ambulância estava recolhendo a vítima, ainda deu pra fazer algumas imagens. Logo depois seguimos para a praia de Copacabana, para completar a matéria sobre os tiros que mancharam a virada do ano na cidade. Por volta das 21h, estávamos na areia, ao lado do palco dos shows, quando passou um casal vindo da direção do mar: a mulher chorava, queria encontrar um PM; eles, turistas vindos de Juiz de Fora, tinham acabado de ser assaltados. Saí da redação para fazer uma reportagem, esbarrei em outras duas.
Ontem fui fazer matéria sobre uma bala que, perdida, achou por bem cair num apartamento no Alto Leblon. Enquanto estava lá, soube de outra notícia: uma segunda bala sem direção tinha quebrado a janela de um apartamento em Copacabana. A reportagem ganhou importância, seria sobre duas balas perdidas na zona sul do Rio. Corremos pra lá. No caminho, já em Copa, tropeçamos em outro fato. Paramos o carro para perguntar a um guarda municipal a localização da rua em que ficava o prédio atingido pelo tiro. Mas antes mesmo de fazermos qualquer pergunta, o guarda olhou o carro de reportagem e foi avisando: "É na Ronald de Carvalho!" Como assim? Nosso destino era outro: "O senhor sabe onde fica a rua tal?" Ele sabia. Em seguida, perguntamos o que tinha acontecido na Ronald de Carvalho. "Tá cheio de polícia lá, invadiram um frigorífico que tem carne roubada, uma confusão danada. É bom vocês irem até lá", aconselhou. A história não era bem essa, mas havia mesmo outra notícia esperando para ser reportada.
Pra não dizer que só falei do Rio: na semana passada li, na coluna do José Sarney, na Folha, uma informação que não li, vi ou ouvi em nenhum outro lugar: segundo o ex-presidente, 34 pessoas foram mortas na passagem do ano em Salvador. Por que isso não foi noticiado nacionalmente, hein? Será que o repórter Sarney errou?
Ontem fui fazer matéria sobre uma bala que, perdida, achou por bem cair num apartamento no Alto Leblon. Enquanto estava lá, soube de outra notícia: uma segunda bala sem direção tinha quebrado a janela de um apartamento em Copacabana. A reportagem ganhou importância, seria sobre duas balas perdidas na zona sul do Rio. Corremos pra lá. No caminho, já em Copa, tropeçamos em outro fato. Paramos o carro para perguntar a um guarda municipal a localização da rua em que ficava o prédio atingido pelo tiro. Mas antes mesmo de fazermos qualquer pergunta, o guarda olhou o carro de reportagem e foi avisando: "É na Ronald de Carvalho!" Como assim? Nosso destino era outro: "O senhor sabe onde fica a rua tal?" Ele sabia. Em seguida, perguntamos o que tinha acontecido na Ronald de Carvalho. "Tá cheio de polícia lá, invadiram um frigorífico que tem carne roubada, uma confusão danada. É bom vocês irem até lá", aconselhou. A história não era bem essa, mas havia mesmo outra notícia esperando para ser reportada.
Pra não dizer que só falei do Rio: na semana passada li, na coluna do José Sarney, na Folha, uma informação que não li, vi ou ouvi em nenhum outro lugar: segundo o ex-presidente, 34 pessoas foram mortas na passagem do ano em Salvador. Por que isso não foi noticiado nacionalmente, hein? Será que o repórter Sarney errou?
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