12 de março de 2008

"Juno" - onde os homens não têm vez



"Juno" é um filme bonito, sensível, emocionante. O roteiro, vencedor do Oscar, foi escrito por uma mulher (Diablo Cody), o que ajuda a entender a delicada abordagem do tema e, principalmente, o ponto de vista feminino da história - uma jovem, Juno (Ellen Page), de 16 anos, que engravida e decide entregar o bebê para adoção. Os diálogos são inteligentes, ágeis; as soluções dramáticas fogem do previsível. Tudo colabora para enaltecer a lógica de Juno, uma garota encantadora, inteligente, decidida, nada óbvia. Até aí, ótimo. Se eu fosse adolescente seria capaz de me apaixonar por aquela menina.
Mas, horas depois de ver o filme, saquei algo meio incômodo. Para enaltecer Juno, o filme arrasa com os homens. Desde o início fica claro que a transa com um colega de turma que originou a gravidez foi iniciativa de Juno; é ela que decide abortar - vai sozinha para a clínica -, é ela que desiste de interromper a gravidez. É a super e bem-resolvida Juno que decide entregar o bebê para adoção, é ela que toma todas as decisões - inclusive as relacionadas com uma eventual retomada do namoro com Bleeker (Michael Cera). Este, não apita nada, não reclama de nenhuma decisão da moça, não demonstra o menor interesse no futuro do filho que, apesar de estar provisoriamente abrigado no corpo de Juno, é também dele: contribuiu, afinal, com 50% daquela empreitada. O lourinho boa gente só sabe correr, comer balinhas e, claro, por uma única vez, a Juno. Parece até que mandou bem, mas esta é outra história.
Mark (Jason Bateman), o homem do casal escolhido para ficar com o bebê, revela-se outro portador de grandes nádegas. Um sujeito dominado pela mulher que, ao conhecer Juno, tem uma espécie de recaída adolescente e passa a lamentar a vida que deixou de ter. E, ainda por cima, vacila num momento-chave do filme, demonstrando insegurança na hora de dar um grande passo do casal. A mulher dele, Vanessa (Jennifer Garner) revela-se mais, digamos, adulta. Já o pai da Juno é um bom sujeito, um cara que sabe segurar a onda da filha, cumpre o papel esperado na trama do filme. Em "Juno", homem legal é o que não passa de um coadjuvante, "escada" para as aventuras do personagem principal. Como o pai e, de certa forma, Bleeker.
No fim das contas, lembrei ter lido há pouco tempo que cientistas britânicos afirmaram ter criado espermatozóides a partir de células-tronco da medula óssea feminina. Ou seja, se o negócio vingar, nem pra isso serviremos mais. Pelo visto - e, moças, por favor, compreendam o machismo final apenas como um uivo ressentido de quem se vê meio sem perspectivas no futuro - só serviremos mesmo para manobrar carros. Isso, enquanto não vierem aqueles que têm movimentos nas rodas traseiras, que transformam o estacionar numa brincadeira de crianças.

10 de março de 2008

Páginas amarelas

O Globo, 20/10/1991

O balão de quem manda


FERNANDO MOLlCA



Passava das 23 horas do último domingo quando começou o espocar de fogos e tiros. No céu, o motivo da festa: um balão que trazia dependurada a inscrição "Da 12". Da 12, Gilson da 12, varejista de drogas, dono dos morros do Andaraí e Divinéia, morto pela Polícia Federal há dois meses. Morreu na Baixada, foi velado no morro do Andaraf, na quadra do bloco Flor da Mina. Os jornalistas - a exemplo do que ocorre em velórios de algumas celebridades - não puderam entrar.
O comércio da área foi obrigado a fechar, numa manifestação de luto compulsório. No dia seguinte, outra manifestação de poder: crianças do morro foram colocadas à frente do cortejo para impedir fotos dos sócios de Gilson da 12. Não havia como evitar a presença de fotógrafos no enterro.
Tento fotografar o balão que leva a homenagem. Depois, corro para a câmara de vídeo, que, emprestada, passava uns dias lá em casa. O balão já está muito longe. Vou para a TV conferir o resultado. A fita mostra apenas um OVNI, um objeto voador não-identificado, cercado de riscos coloridos. Mas ficaram gravados os fogos, os tiros e os clarões que continuavam a surgir por entre as luzes do morro.
As imagens lembram outras, igualmente precárias, meio indefinidas e assustadoras. Aquelas, dos mísseis que cruzavam os céus do Iraque, Israel e Arábia Saudita durante a Guerra do Golfo. Novos estampidos fazem contraponto à minha CNN privé. Aqui, â guerra continua. Já estou, de novo, pra cá de Bagdá. De volta ao Grajaú.
Entro no quarto de meus filhos e, como dissera pela manhã Lisa Simpson (aquela de "Os Simpsons"), sinto um "arrepio ético". E se, o mais velho, de 4 anos, tivesse acordado e me perguntado o motivo da barulheira? Será que eu diria um "nada não, só uma festa para um bandido que morava aqui perto"? Ou será que teria mentido (algo como "mais uma festa pelo Dia das Crianças")? Bem, ele não acordou. As varandas e janelas que me cercam já retornaram para seus domingos. Quem não decifrou o enigma do "Da 12" deve estar até aliviado - foi só um balão, nada comparável com os tiroteios que costumam varar madrugadas.
Melhor também para os do morro - não houve troca de tiros, apenas uma barulheira danada que durou uns dez minutos. As crianças de lá devem ter acordado - as de 4 anos ou mais certamente já sabem quem foi Gilson, conviveram com ele. Muitas podem até ter trabalhado para ele. Todas devem ter ficado fascinadas com o espetáculo do balão.
Apesar das deficiências do ensino brasileiro, elas não devem ter tido nenhuma dificuldade para decifrar o "Da 12".
Essas crianças também devem saber quem é o número da vez. A numerologia de subsistência deve ser aprendida com presteza: ao contrário dos grandes atacadistas das drogas, estes, digamos, franqueados, costumam ter vida curta. Gilson morreu com 27 anos.
O território de Gilson da 12 era por ele mesmo chamado de "Cidade sem lei". A expressão revela orgulho, mas, ao mesmo tempo, apresenta um erro no diagnóstico. Existem leis por lá. Só que são outras, diferentes das que, pelo menos em tese, vigoram fora dos limites daqueles morros. Leis criadas sem necessidade de uma Constituinte, bastante claras e duradouras: resistem melhor à mudança de xerifes que as leis brasileiras às trocas de presidentes. Não é preciso sequer uma emendinha para modificar algo tão simples como um "quem manda aqui sou eu".
Enfim, foi só o barulho. Afronta por afronta, soltar balões também é ilegal. Mesmo que não homenageiem traficantes. Nada de muito grave, de anormal. Como os seqüestros, os assassinatos, os roubos de carros, cabelos, tênis, mochilas e cestas básicas. Como o extermínio de crianças e jovens. Há anos que dormimos com barulhos como esses.

Resposta

Tu és time de fanfarrão,
Ganha metendo a mão.
Que papelão...
Eu nunca me calarei,
Onde estiver gritarei,
Pega ladrão.

7 de março de 2008

Exportação de gente

O Itamaraty está certo ao partir para a retaliação no caso dos brasileiros barrados em Madri. É do jogo globalizado, um jogo esquisito que propõe a abertura de fronteiras para produtos e seu fechamento para seres humanos. Um jogo cruel e injusto, especialmente para países, como os das Américas, que receberam tantos e tantos italianos, portugueses, japoneses, alemães, espanhóis. Na época, eles é que precisavam sair de seus países em busca de uma vida melhor.
Mas, sei lá, dói o coração ver incontáveis brasileiros sendo obrigados a sair do país. É claro que o rigor nas fronteiras e nos aeroportos é diretamente proporcional ao aumento dos brazucas clandestinos no primeiro mundo (Ana Beatriz Marin publicou um post interessante em http://oglobo.globo.com/blogs/barcelona/). Lembro que há uns quatro anos li, em O Globo, a carta de um italiano escrita logo depois dele levar o neto ao aeroporto. O rapaz acabara de partir para a Europa, ia tentar a vida por lá. Fazia o percurso inverso do avô. A carta era triste, muito triste. Acho que cada um tem o direito de tentar a vida em qualquer lugar, por qualquer motivo. Mas dá pena ver tanta gente indo embora. Não gosto de ver o Brasil como exportador de gente: dentistas, putas, jogadores de futebol, cientistas, tanto faz. Era melhor quando recebíamos os imigrantes - sinal de que o sonho era viável por aqui.

6 de março de 2008

Retaliação

Pra equilibrar o jogo com a Espanha, que insiste em barrar brasileiros, que tal devolvermos o Chico Recarey e aqueles espanhóis donos do Bateau Mouche? Vingança, vingança!

5 de março de 2008

A Varig e o peru do Di Cavalcanti

O quadro que ilustra este post, de autoria do Di Cavalcanti, fazia parte do acervo da antiga Varig e acabou sendo leiloado para pagar parte das dívidas da empresa. A Varig, em seus tempos áureos, tinha pedido ao Di para pintar um quadro para decorar sua loja em Lima, algo que tivesse elementos locais. O Di mandou o quadro com duas baianas em Salvador. O cara da Varig achou bonito, interessante, mas... e a chamada cor local, a referência ao Peru? O pintor então resolveu o problema. "Ah, é isso que vocês querem?" - perguntou. Pegou o quadro, armou-se com pincel e tintas, e pintou um peru logo abaixo das baianas.

A Varig e o Roberto Campos

O ex-deputado Roberto Campos - que, pelo menos, tinha bom humor -, dizia que o Brasil era um país tão esquisito que, enquanto o comunismo definhava no mundo inteiro, por aqui havia três partidos comunistas (hoje são apenas dois). Não faz muito tempo, a Varig estava para acabar, ficou um tempão na UTI. Mas foi vendida, e, depois, revendida para a Gol. E, agora, a velha Varig - a que ficou com as dívidas -vai renascer, com o nome meio esquisito de Flex. Uma empresa modesta, que vai começar apenas com um avião. Mas vai voltar. Ou seja, tudo indicava que não haveria mais nenhuma Varig, mas haverá duas. Imagina a confusão pra explicar isso tudo pros credores lá fora.
Vida longa para as duas.

3 de março de 2008

O menino no sinal

A cena foi talvez lírica, talvez mais uma simples demonstração de miséria - ou as duas coisas, sei lá. Ocorreu na semana passada, no sinal que dá acesso à Radial Oeste, ali bem perto da UERJ. Um menino de dez anos - ou onze, ou doze, ou treze -, magro, sujo, descalço, esperou o sinal fechar para colocar-se diante da fila de carros. Em seguida, ensaiou o gesto de quem iria começar a fazer malabarismos com bolinhas de tênis. E iniciou a apresentação. Até aí, nada demais. O curioso é que não havia bolas. O menino mantinha o olhar no alto, movimentava alternadamente os braços, procurava equilibrar as bolinhas virtuais. Fazia isso muito sério: não sorria, não brincava com a situação um tanto quanto inusitada que promovia naquele início da tarde. Em troca do espetáculo, recebeu moedas tão virtuais quanto as suas bolinhas de tênis. Ninguém lhe estendeu um trocado sequer. Sinal aberto, ele sentou-se no canteiro com o mesmo ar triste. Eu já engatava uma segunda no momento em que passei por ele, pelo garoto que, ao protagonizar um espetáculo um tanto quanto patético, conseguiu ao menos chamar minha atenção para algo que já se tornou rotina: a presença de meninas e meninos, em horário escolar, pedindo dinheiro nos sinais. Ao engatar a terceira, lembrei o quanto isso é absurdo.

1 de março de 2008

Parabéns pra você



Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente
(Cidade Maravilhosa, André Filho)

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
(Samba do avião, Tom Jobim)

Rio de Janeiro, gosto de você
Gosto de quem gosta
Deste céu, deste mar, desta gente feliz
(Valsa de uma cidade, Antônio Maria e Ismael Neto)

O Rio de Janeiro continua lindo
O Rio de Janeiro continua sendo
(Aquele abraço, Gilberto Gil)

Rio 40 graus
Cidade maravilha
Purgatório da beleza
E do caos...
(Rio 40 graus, Fernanda Abreu)

O poente na espinha
Das tuas montanhas
Quase arromba a retina
De quem vê
(Carioca, Chico Buarque)

Brasil!
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar!
(Saudades da Guanabara, Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro)


Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil

29 de fevereiro de 2008

O Cid é alemão!

Cientistas torraram uma grana e passaram horas e horas diante de computadores para reconstituir o rosto de Johann Sebastian Bach. Tudo isso para concluir que o genial compositor era a cara do Cid Benjamin.

Palavra de cardiologista

O amigo, botafoguense e grande cardiologista Marcelo Assad me mandou o texto abaixo, que também aborda o comportamento do Souza, atacante do Flamengo. Por falar nisso, boa a atitude do Kléber Leite, vice de futebol do Flamengo, de ligar para o Bebeto de Freitas, presidente do Botafogo. É hora de baixar a bola e impedir que a tensão - agravada pelo gesto irresponsável do Souza - complique ainda mais a relação entre as duas torcidas. Sensatez nunca é demais, né?
Por via das dúvidas, acho que vou passar a ficar ao lado do Marcelo nos jogos do Botafogo. Pode ser útil ter um cardiologista por perto...


A cena patética e infeliz estampada na primeira página do Globo, retrata a irresponsabilidade, ausência de profissionalismo e respeito,de um pseudo "profissional" da arte da bola. Não podemos esperar que o Souza tenha a percepção e a sensibilidade para captar as consequências de sua grosseira e infantil atitude, muito própria dos campos de várzea ou do aterro do flamengo. Esperamos que pessoas ligadas ao Flamengo, portadoras de maior discernimento e entendimento, possam orientar este rapaz, que vêm se protagonizando por agressões físicas e morais à colegas de profissão e a torcedores que contribuem para seu desproporcional e exagerado salário. Até admitimos que ele lance mão de artifícios para sobressair e aparecer, já que não será por sua qualidade ou capacidade profissional que alcançará êxito nesta empreitada. Reflitamos se algum craque do passado como: Nilton Santos, Garrincha, Pelé, Tostão, Gérson, Zico, Falcão ou Roberto Dinamite agiram em algum momento com tamanha imbecilidade. O que nos conforta é ter a certeza que jogadores assim, não representam nada e que num curto espaço de tempo, ninguém mais se lembrará deste nome.A rivalidade entre os clubes sempre existiu e sempre existirá, mas que se mantenha no patamar do amor, da torcida ao seu clube e que não tenha a contribuição dos profissionais para que a violência e a insensatez imperem.

Marcelo Assad
Rio de Janeiro

28 de fevereiro de 2008

Horário da lua

Mudando de assunto: o release da Prefeitura do Rio já é meio velhinho, mas vale reproduzi-lo aqui. Trata da programação do Planetário para o eclipse ocorrido agora, em fevereiro. Na pressa, o coleguinha que o redigiu, escorregou ao acentuar a palavra "nu" - isso passa. O mais curioso é o horário em que, segundo o comunicado, o eclipse atingiria seu ápice: 24h46 - ou catorze minutos para as vinte e cinco horas. O tal do eclipse mexeu tanto com o nosso planeta que acabou gerando um dia de 25 horas. O pior é que o release - que pode ser lido em http://www.rio.rj.gov.br/pcrj/verao2008/ - foi reproduzido em vários sites, com o tal horário de 24h46. É só fazer uma busca no Google.

Planetário distribui senhas para ver eclipse total da lua na quarta-feira

Depois de amanhã, quarta-feira, o eclipse total da lua poderá ser acompanhado pelos interessados, no Planetário da Cidade, na Gávea, que distribuirá gratuitamente 260 senhas aos vistantes a partir das 22h.

O início do eclipse, que também poderá ser visto a olho nú, está previsto para 22h43 e atingirá seu ápice à
(ôps!) 24h26, terminando às 2h09 da madrugada de quinta-feira.

Com sede na Rua Vice-Governador Rubens Berardo, 100, a Fundação Planetário do Rio de Janeiro dispõe de quatro telescópios modernos em cúpulas de observação com aberturas em forma de fenda que podem localizar até 64 mil objetos no céu. Mais informações podem ser obtifdas pelao telefone 2274-0046.

Postado em 18 de fevereiro de 2008.

O gesto do Souza e o ministro do Chico

A nova letra que a torcida do Flamengo fez para a "Ninguém cala..." é, admito, engraçada. Melhor isso do que dizer que vai matar, trucidar. Sacanear a torcida adversária faz parte do jogo, da brincadeira - assim como reclamar do juiz. A sátira lembra aquela outra, sobre o pior ataque do mundo, feita há tempos pela torcida do Vasco.
Mas fiquei preocupado quando, ontem à noite, vi pela internet que o Souza fingiu que chorava ao comemorar o gol que fez contra o tal do Cienciano. Uma outra ironia com a reação dos jogadores, técnico e presidente do Botafogo depois do jogo de domingo. Torcida é torcida, mas o Souza... O cara volta e meia comemora gols fazendo, com as mãos, o gesto de quem dispara uma arma - negócio meio complicado pra quem vive numa cidade violenta como a nossa. Soube há pouco, por um amigo flamenguista, que volta e meia o mesmo jogador faz outro gesto, cruza os punhos cerrados sobre a cabeça - algo que remeteria para um outro tipo de organização, daquelas que disputam territórios em morros cariocas. Céus!
No domingo, o Souza começou toda aquela desnecessária confusão depois do primeiro gol do Flamengo - o empate não era bom pro Botafogo, não haveria porque seus jogadores retardarem o reinício da partida. O Souza não precisava ir lá disputar a bola com o Castillo. Agora, o sujeito sacaneia todo o Botafogo - jogadores, dirigentes, técnicos e, mesmo, torcedores. Sacaneia colegas de trabalho, incita a torcida, acirra ânimos. Espero que isso não renda mais confusão. Mas, do jeito que as coisas andam - lembremos que um torcedor do Botafogo foi morto depois do jogo de domingo -, tende a dar merda. Faltou à diretoria do Flamengo um diretor do "Vai dar merda", um equivalente clubístico ao ministério que o Chico Buarque sugeriu ao governo federal. Alguém que, há algum tempo, tivesse dado uma bronca no Souza. O problema é que, de um modo geral, dirigente adora qualquer gesto que o identifique com a torcida. Mesmo que isso causa problemas lá na frente, que coloque ainda mais em risco a vida dos que se dispõem a ver jogos no Maracanã.
Acho que os dirigentes do Botafogo e do Flamengo poderiam tentar dar um jeito de diminuir esta tensão, os dois times vão se enfrentar em breve, na disputa pela Taça Rio. O Botafogo reclamou do juiz, mas sequer insinuou participação da diretoria do Flamengo numa suposta armação - isso abre caminho para um entendimento. Repito o que já andei dizendo em comentários anteriores: muitos e muitos torcedores deixam de ir ao Maracanã quando seus times enfrentam o Flamengo. Não por medo de perder, mas por medo de apanhar. A torcida do Flamengo não detém o monopólio da estupidez nem da violência (nisso, todas as organizadas tradicionais se equivalem), mas, por ser muito maior que as outras, tem exercitado mais essas, digamos, características. Enfim, cabe aos dirigentes - e também a nós, jornalistas - contribuírem para segurar as pontas. A irresponsabilidade de um jogador não pode colaborar para o aumento de uma já assustadora violência nos estádios e em volta deles.

26 de fevereiro de 2008

Chororô rubro-negro (pra não dizer que só nosostros reclamamos - e pra encerrar logo esse assunto)

1. 09/05/07
Renato: 'Esse juiz é uma m...'
Autor de dois gols, camisa 11 reclama da atuação do árbitro argentino no Maracanã


Márcio Iannacca - Do GLOBOESPORTE.COM, no Rio de Janeiro

O meia Renato, autor de dois gols na vitória do Flamengo por 2 a 0 sobre o Defensor, do Uruguai, pela Taça Libertadores, reclamou da atuação do árbitro argentino Héctor Baldassi. De acordo com o jogador, o juiz deixou de marcar algumas faltas e foi conivente com os atletas do time uruguaio, que retardavam o jogo a todo momento.No fim da partida, Renato correu em direção ao árbitro para reclamar de sua atuação. Contido pelos companheiros, o jogador desabafou:
- O time ficou 90 minutos em cima deles. Jogamos em cima e o nosso time se arriscou o tempo todo. O juiz amarrou o jogo. Esse juiz é uma m... - esbraveja Renato.


2. 10/05/2007 -

Resultado serve para o Boca, diz Kléber
Dirigente xinga árbitro e diz que vai perseguir o argentino até o fim de sua vida


Márcio Iannacca - Do GLOBOESPORTE.COM, no Rio de Janeiro

O vice-presidente de futebol do Flamengo, Kléber Leite, estava revoltado com a atuação do árbitro argentino Héctor Baldassi. O dirigente insinuou que o juiz conduziu a partida para que o Rubro-negro fosse eliminado e, no futuro, não cruzasse com o Boca Juniors. As duas equipes poderiam se enfrentar na semifinal da Taça Libertadores.
- Não sei se vai valer alguma coisa, mas quero que todos saibam o que esse juiz fez aqui. Ele é um ladrão, safado. O Boca Juniors tinha interesse nessa partida. Tenho um bom relacionamento com o pessoal da Conmebol e vamos fazer uma reclamação por escrito - diz Kléber.
O dirigente foi além e afirmou que vai perseguir Baldassi pelo resto da vida.

- Ele vai me aturar pelo resto de sua vida. Ele ganhou um inimigo na vida. Vou atrás dele até o fim - ameaça o dirigente rubro-negro
.


3. "Nós fomos vítimas de um ladravaz"

A frase é de Kléber Leite, vice-presidente do Flamengo, em entrevista também a Juca Kfouri. Ele se refere ao árbitro argentino da partida entre Flamengo e Defensor, pelas oitavas de final da Copa Libertadores. "Eu não tenho dúvida de que esse árbitro argentino veio ao Rio de Janeiro para armar o resultado"..."e beneficiar o Boca Juniors".Kléber afirma que o juíz fez o resultado do jogo e não admite a possibilidade de simples erros. Segundo ele, "há erros e erros, como o da nossa bandeirinha belíssima que se equivocou em dois lances dificílimos. Há outros que se equivocam também, até porque com essa tecnologia de hoje fica difícil competir".

25 de fevereiro de 2008

Dor alvinegra (2)

Tudo bem que futebol seja talvez a melhor metáfora da vida - muita gente boa já disse isso (os argumentos a seguir são de outros, os transcrevo de memória): em esportes como vôlei e basquete são muitas as oportunidades de se fazer pontos; no futebol elas são escassas - como na vida. Nossas chances não são tantas assim, um simples vacilo e lá se vai a mulher, ou trabalho, ou a viagem. Babau. Futebol, com suas regras clássicas e pouco mudadas, representa também um teste para um sentimento de justiça. Parece que o Camus disse que num estádio de futebol, e apenas ali, conseguia se sentir inocente. Em tese, acreditamos que dentro das tais quatro linhas, a justiça vai se impor, soberana, acima das pressões. Mas, como na vida, isso não acontece. O futebol é injusto: por obra do acaso ou mesmo por roubalheira explícita, nem sempre o melhor vence. A gente sabe disso: mas o roubo no futebol, talvez por mexer com algo que tem valor apenas simbólico (nada mais abstrato que um título), machuca muito. Aquela sensação de criança que tem o doce roubado - um doce é tão barato, por que roubá-lo? Nessas horas fica difícil recuperar a inocência detectada por Camus.
Tudo bem, a vida continua, outros campeonatos virão, daqui a pouco a tristeza encontra forças para virar esperança. Mas, caramba, citando Drummond: é só um jogo, mas como dói.

Numa inútil tentativa de consolo, recorro, mais uma vez, a Paulo Mendes Campos.

"Sou preto e branco também, quero dizer, me destroço para pinçar nas pontas do mesmo compasso os dualismos do mundo, não aceito o maniqueísmo do bem e do mal, antes me obstino em admitir que no branco existe o preto e no preto, o branco.
(...)
O Botafogo é um clube com temperamento amadorístico, mas forçado, a fim de não ser engolido pelas feras, a profissionalizar-me ao máximo; também sou cem por cento um coração amador, compelido a viver a troco de soldo.
Reagimos ambos quando menos se espera; forra-nos, sem dúvida, um estofo neurótico. Se a vida fosse lógica, o Botafogo deixaria de levar o futebol a sério, fechando suas portas; eu, se a vida fosse lógica, deixaria de levar o mundo a sério, fechando os meus olhos.
(...)
O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu; o Botafogo sem Garrincha seria menos Botafogo, como eu; o Botafogo tem um pé em Minas Gerais, como eu; o Botafogo tem um possesso, como eu; o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu; ultimamente, o Botafogo anda cheio de cobras e lagartos, como eu.
O Botafogo é mais abstrato do que concreto; tem folhas secas; alterna o fervor com a indolência; às vezes, estranhamente, sai de uma derrota feia mais orgulhoso e mais botafogo do que se houvesse vencido; tudo isso, eu também.
Enfim, senhoras e senhores, o Botafogo é um tanto tantã (que nem eu). E a insígnia de meu coração é também (literatura) uma estrela solitária."

Dor alvinegra (1)

O Fernando Calazans classificou de "ridículo" o episódio ocorrido ontem no vestiário do Botafogo: a revolta do Cuca, o choro de jogadores e do presidente Bebeto de Freitas. O Calazans foi duro, chamou a cena de "descabida", disse que o técnico alvinegro atuou como um ator canastrão. Engraçado que o rigor tenha vindo de um cronista que tanto prega pela volta de valores meio esquecidos no nosso futebol: na sua coluna, ele defende o jogo limpo e o drible, condena a violência, exalta as equipes que partem para o ataque. Valores que - nestes tempos de "créu", de jogador que comemora gol imitando o gesto de disparar um fuzil - chegam a dar um certo ar nostálgico à sua coluna. Volta e meia o Calazans lembra um daqueles pregadores que berram profecias e anunciam apocalipses no meio de uma multidão indiferente, que sequer esconde um certo riso ao ver o sujeito, terno-e-gravata surrados, a clamar pela salvação.
O Calazans que, certo de sua fé, não teme ser chamado de retrógrado, incorporou, no jornal desta segunda-feira, um pouco do pragmatismo pit-bull que domina nosso futebol e, mesmo, tantos e tantos aspectos da política e das relações aqui no Brasil. Para o cronista, a revolta e o choro não passaram de manifestações ridículas. Engraçado, eu, como leitor habitual de sua coluna, achei que ele poderia até não exaltar a cena, mas, pelo menos, nela veria o ressurgimento de valores importantes, comuns em outros tempos. Tempos em que jogadores tinham sim amor pela camisa, em que dirigentes eram homens apaixonados pelos clubes e não enriqueciam nos cargos. O choro e a revolta de ontem, Calazans, pareceram ser sinceros. Expressavam o desencanto com uma lógica cruel, uma rendição ao poder do clube hegemônico.
No ano passado, o Botafogo foi prejudicado na final contra o mesmo Flamengo. Ontem, isto voltou a ocorrer - duvido que o juiz marcasse aquele pênalti a favor do Botafogo, não consigo entender como ele não apitou quando o Bruno agarrou uma bola atrasada com o pé por um jogador da defesa rubro-negra. Roubo explícito? Não, apenas sucessivas manifestações de boa vontade com um time que hoje concentra o poder no futebol carioca. Como disse aquele juiz assumidamente ladrão - o Edílson -, para prejudicar um time não é preciso anular gols ou marcar pênaltis inexistentes. Basta irritar, inverter uma ou outra falta, tirar o equilíbrio dos jogadores adversários.
O desabafo dos jogadores alvinegros ontem, Calazans, expressou a perda do tal equilíbrio, a revolta com mais uma injustiça. Como muitas e muitas outras manifestações humanas - o amor, por exemplo - ficou ali, na fronteira entre o sublime e o ridículo. Esta capacidade de nos expor é que nos torna humanos, imprevisíveis. Pena que você tenha optado - créu! - por cravar a opção do ridículo e não ter feito nenhuma concessão ao sublime da cena.

22 de fevereiro de 2008

Páginas amarelas/ No balanço de Cuba (1)

Estive em Cuba duas vezes, em 1985 e em 1994. O texto abaixo foi publicado em 17/11/94 no caderno de turismo da Folha. Já está meio desatualizado, muita coisa mudou por lá: até o presidente, quem diria? Mas acho que dá para dar um panorama geral e despretensioso sobre as contradições que já então se assanhavam pela ilha.

Bairro histórico lembra antigo pelourinho

Do enviado especial a Cuba

Cuba mudou mito. De singular tentativa socialista, transformou-se em uma ilha plural. Há o país oficial e o paralelo, o do peso e o do dólar, o do cubano e o do turista. O melhor desta esquizofrenia político-social-econômica é que se pode visitar ambos ou apenas um, ver o que restou do socialismo ou simplesmente ir à praia.
Cuba é possivelmente o único país do mundo em que funcionárias públicas trabalham com as nádegas de fora. Não se trata de mais uma tara daqueles comunistas barbudos. As tais funcionárias são bailarinas de algumas das mais animadas repartições do mundo: os cabarés cubanos.
Em uma quase metáfora das dificuldades do país, os há até poucos anos imensos biquínis revelam hoje escassez de tecido e exaltação de ousadia e liberalização.
Fora o socialismo, as duas Cubas - a do turista e a do cubano - continuam muito parecidas com a nossa Salvador: na ilha não há a miséria baiana. Em compensação, as construções do "novo" Pelourinho dão um banho nos mal conservados casarões e palácios de Havana Velha, bairro histórico da capital cubana.
Lá, como aqui, Iemanjá é Iemanjá. Ogum é Ogum etc. Herança iorubá: nação africana de onde foram levados escravos que serviram às então colônias espanhola e portuguesa. Cubano é parecido com baiano até no desrespeito aos horários - e o pior é que lá todo mundo é funcionário público.
A fronteira das duas Cubas é marcada por uma linha imaginária formada por notas de dólares. Na ilha há os com-dólares e os sem-dólares. Os primeiros podem até dizer que o paraíso não é algo assim tão distante e não fica necessariamente a menos de 200 km ao norte, na Flórida.
Já os sem-dólares são obrigados a viver com o peso, moeda que, se ainda oferece alguma garantia contra o inferno da fome, serve, no máximo, para comprar um lugar nas arquibancadas do purgatório.
Para o turista não há opção: ele está entre os que têm dólares. O peso fica ainda mais leve para o estrangeiro e tem apenas a discutível utilidade de servir como recordação.
Com algum jeito, dá até para se sentir um milionário norte-americano em Copacabana. Isto, até na desvantagem de ser assediado por: 1) meninos (e velhos) pedindo dinheiro (dólar, claro, Fidel Castro já disse que "o real não cheira bem"); 2) funcionários públicos oferecendo rum e charutos a preços que, garantem, ser de ocasião; 3) dezenas de pessoas querendo saber detalhes dos próximos capítulos da novela "Felicidade".
A parte pobre do país, que inclui Havana Velha, é uma mistura de subúrbio carioca com Pelourinho pré-reforma. Apesar da pobreza, do mau estado de conservação dos prédios, dos pedintes, dos traficantes de rum e dos noveleiros, ir a Havana Velha é tão fundamental quanto beber mojitos ou daiquiris, drinques feitos com rum.
Para quem saiu do Brasil disposto a ficar distante de pobres e novelas, o melhor é correr para Varadero, a 140 km da capital, e ficar de molho no mar com águas a 25ºC.

21 de fevereiro de 2008

Isso me irrita! (2)

Telemarketing em geral. Um tipo de telemarketing em particular: a moça liga para o seu celular, se identifica como funcionária de uma operadora concorrente e pergunta (céus!) o nome de quem está falando. Aconteceu comigo umas três ou quatro vezes. Em todas perguntei para a mulher como é que ela tinha a cara-de-pau de ligar para alguém cujo nome ignorava.

18 de fevereiro de 2008

O show dos subsídios

O Ancelmo Góis publicou, o Marcelo Moutinho comentou (www.marcelomoutinho.com.br) - com um título pra lá de sugestivo, "E vai rolar a fe$ta" -, a decisão do Ministério da Cultura de permitir que a Ivete Sangalo vá ao mercado captar R$ 1.850.820,00 para fazer seis shows pelo país. O negócio é mais ou menos o seguinte: com a autorização, a produção da Ivete - uma artista popular, que tem shows lotados e vende muitos CDs e DVDs - vai em busca de patrocínio. O dinheiro que as empresas investirem será abatido de seus impostos. E as empresas ainda têm direito de posar de patrocinadoras do show - na verdade, os patrocinadores seremos todos nós, gostemos ou não gostemos da Ivete, tenhamos ou não tenhamos grana para assistir seus shows, compremos ou não ingressos.
Em tese, o mais justo aplicar dinheiro público em atividades artísticas e culturais que não tivessem como viver apenas do mercado (orquestras, grupos populares e/ou iniciantes, atividades em cidades fora dos grandes centros). Projetos de artistas consagrados poderiam até receber uma graninha, desde que envolvessem uma contrapartida - shows gratuitos, com ingressos populares, sei lá. O complicado é usar o dinheiro de todos para bancar a diversão de alguns e o lucro de poucos.
Pra não ser injusto: a Ivete não é, nem de longe, a única a se beneficiar da lógica de dar dinheiro público para quem já o tem (uma velha prática brasileira, por sinal). Fui dar uma olhada no site do Minc. Olha só que encontrei: a Maria Bethânica conseguiu captar R$ 500 mil reais para a série de shows Brasileirinho II, também chamada de Dentro do mar tem rio. Conseguiu dinheiro na Eletrobrás, Unibanco e Copesul. Pior é que o site diz que houve problemas na prestação de contas. No Canecão, os ingressos pagos por não-estudantes custaram de R$ 60,00 a R$ 140,00 (havia poltronas a R$ 20,00, compradas na hora do show). Em São Paulo, variavam de R$ 100,00 a R$160,00. Ingressos, vale frisar, subsidiados com dinheiro público.
Gilberto Gil conseguiu, em 2002 - antes de virar ministro -, captar R$ 143 mil apenas para a produção editorial de um livro - Todas as letras - que reuniria as letras de suas músicas e apresentaria seus comentários sobre elas. A impressão seria bancada com recursos próprios. Também em 2002, sua produtora captou R$ 860 mil para viabilizar a presença de seu Trio Elétrico Expresso 2222 no Carnaval de Salvador.
Que ninguém diga que implico com baiano. A produção da peça Mademoiselle Chanel, com Marília Pêra, captou R$ 619 milhões: se não me engano, os ingressos de não-estudantes custavam, no Rio, até R$ 120,00. Depois, os produtores conseguiram mais R$ 477 mil para apresentações em outras sete cidades do país.
Paulinho da Viola, um dos artistas que mais admiro, solicitou ao MinC o direito de captar R$ 1.726.300,00 para fazer, em 2008, 20 shows em dez cidades brasileiras. O projeto ainda não foi aprovado. Mais modestos, os gaúchos Kleiton e Kledir querem autorização para captar R$ 233.500,00 para produzir um CD com músicas inéditas que terá a tiragem de 3 mil exemplares: custo unitário, portanto, de R$ 77,83. Ah, cada CD será vendido por R$ 25,00.
OK, os valores são menores que os inacreditáveis R$ 9,4 milhões captados pelos produtores do Cirque du Soleil em 2006. Mas, enfim, ficam algumas perguntas: será que não seria mais justo que o financiamento dos shows e CDs de artistas consagrados fosse feito pelos fãs que compram ingressos e discos? Por que todos temos que pagar por isso? Por que o Estado tem que subsidiar a propaganda feita por grandes empresas? Importante registrar que tudo isso é feito legalmente, não há irregularidade. Mas talvez seja o caso de se repensar esse tipo de investimento público. Enquanto isso, os jornalistas que cobrem a área poderiam passar a incluir o valor captado com base nas leis de incentivo nas matérias sobre estréias de peças, filmes e shows subsidiados.

15 de fevereiro de 2008

Meninas mortas

Não quero transformar este blog num espaço de discussão de segurança pública - o Jorge Antônio Barros faz isso muito bem lá no seu Repórter de Crime (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/). Mas, caramba: acabo de cobrir a terceira morte de menina de onze anos vítima de bala classificada como perdida. Cobri os três casos: todos ocorreram em favelas durante conflitos entre policiais e bandidos. Nesta sexta, a vítima foi Ágata Marques dos Santos, moradora da Rocinha; na semana passada morreu, na Vila Cruzeiro, a Yorrane Abas Tavares Ferreira; no dia 15 de dezembro passado a bala matou Fabiana Santos Monteiro, moradora do morro do Telégrafo, na Mangueira. Sobre este último caso cheguei a fazer um post no dia 18 de dezembro, A rosa de número 6.001.
A Secretaria de Segurança diz que lamenta as mortes, mas que é assim mesmo, a polícia tem que combater o tráfico. A Polícia Civil soltou uma nota em que afirma que tem procurado agir com "planejamento, inteligência e cautela" para evitar vítimas inocentes. Não duvido das boas intenções das autoridades de segurança, sei que a situação no Rio é muito complicada. Mas não dá pra reagir com naturalidade diante de tantas mortes de crianças. Não consigo acreditar que esse seja o preço que tenhamos que pagar pelo suposto fim do domínio territorial de traficantes em favelas cariocas. Não é a primeira vez que a política de confronto é exacerbada, outros governos já fizeram o mesmo, com resultados pífios. Também não dá para ver com naturalidade cenas de policiais atirando em direção às casas da favela, para o alto do morro, sem mirar num alvo específico. Bandidos fazem isso? Fazem. Mas eles são bandidos, a polícia não pode se igualar a eles.
O pior é que as histórias da Ágata, da Yorrane e da Fabiana vão sumir logo dos jornais (estas duas já desapareceram). O destaque dado aos mortos tem a ver com a renda de cada um. A indignação da população também é proporcional à posição social das vítimas. Não tenho a menor dúvida que a reação da sociedade e mesmo das autoridades seria outra se as meninas mortas morassem aqui, no asfalto, e não lá em cima, nas favelas.